Segunda-feira, 20 Abril 2026
spot_img
InícioOpiniãoDa retrosaria para as redes

-

Da retrosaria para as redes

ÚLTIMAS

Professor de jornalismo

Já vai longe no tempo o episódio que vivi algures durante uma campanha para umas eleições legislativas. Acompanhando, enquanto jornalista de um órgão nacional, um dos candidatos, a comitiva levou-nos a uma redação de um pequeno jornal mensal, que funcionava numa retrosaria. O proprietário e único “jornalista” escrevia, editava, compunha, publicava e distribuía o jornal da terra todos aos meses. Não havia muitas opções e aquela era a oportunidade para que os habitantes pudessem acompanhar as novas, ainda que apenas de mês a mês.

O episódio recorda-nos a importância do jornalismo local para as comunidades e de como esta proximidade, que também pode trazer vícios e constrangimentos, é o terreno fértil para a partilha e conhecimento da coisa pública local.

Naqueles tempos, a Internet dava os primeiros passos. O jornal era em papel e só num exercício de ficção científica se poderia imaginar que no futuro as notícias nos pudessem chegar pelo telemóvel. A certeza daqueles tempos é que o jornalismo local era um marco fundamental para o engajamento (como hoje se diz) das populações às comunidades. Longe, por isso, de se imaginar que, apesar da crise que sempre afetou o setor, o tema do dia nos dias de hoje fosse o desaparecimento dos media locais e o surgimento cada vez mais evidente daquilo a que se chama “desertos de notícias”; territórios nos quais não existem ou estão em perigo de existência meios de comunicação social jornalísticos.

O relatório referente a 2025 da equipa da Universidade da Beira Interior que tem estudado os desertos noticiosos em Portugal, constatou que 45% dos municípios portugueses não possui qualquer meio de comunicação social jornalístico.

É um fenómeno preocupante que afasta as populações da sua realidade mais próxima, retirando-lhe conhecimento e com isso reduzido a sua capacidade crítica. O desenvolvimento local, nas suas diversas dimensões política, social, cultural, é uma consequência direta da capacidade instalada de vária ordem, onde se inclui, invariavelmente, a competência crítica e discussão pública daquilo que é público. O jornalismo local tem, neste domínio, um papel insubstituível.

Acresce a esta situação, os mecanismos cada vez mais eficientes utilizados por aqueles que pretendem disseminar desinformação, fenómeno que, como temos visto, tem aumentado de modo evidente nos últimos anos.

Ou seja, estamos perante um cenário em que não apenas o jornalismo local está a perder espaço no território, como por outro lado avançam, e têm cada vez mais projeção, espaços de mentira e desinformação que, sem o contraponto do rigor jornalístico, encontram um caminho aberto para proliferar colocando, no limite, em perigo a própria democracia. É uma realidade que não é nova (sempre existiu desinformação), mas que ganha nas redes sociais uma amplitude há uns tempos inimaginável, fruto da abertura do espaço mediático a todos os que tenham acesso à Internet e às redes sociais.

Mas, em vez de nos acomodarmos na justificação gasta e pouco credível (já agora) de que a Internet e as redes sociais são o mal de tudo isto, importa olhar para aquilo que podemos fazer. Ao mesmo tempo que nos encostamos à ideia da “maldade das redes”, vão surgindo projetos jornalísticos que procuram romper com a tendência de marasmo e de redução do jornalismo local (de que este site é um excelente exemplo).

O erro estará em olharmos para estes projetos de jornalismo local com o olhar do jornal da retrosaria. Estes que agora surgem, estão pensados para uma nova realidade mediática, social e política. Para um novo leitor que procura informação de modo rápido, mas credível e rigorosa.

E isto, em tempos de desinformação e de propaganda fácil ao ódio e à mentira, não é coisa pouca.

OPINIÃO