Vive em Azeitão desde sempre. É assumidamente apaixonado pela região, ao ponto de, com visão e medidas concretas, transformar o amor em dever. Tiago Cardoso candidatou-se a presidente da Junta de Freguesia de Azeitão, nas eleições autárquicas 2025, que decorreram a 12 de outubro, pelo Partido Socialista, e ganhou.
Em entrevista ao Revela Arrábida, assume que ainda está a colocar “a máquina a andar”, mas que está próximo da população, com ouvidos atentos e presença no terreno. Apresenta, dentro dos compromissos, destaque para a aquisição de equipamentos, e deseja ver concluído o projeto e iniciada a obra da Escola Secundária de Azeitão.
Com foco em medidas para potenciar a vila do concelho de Setúbal, considera que aquele lado da Serra da Arrábida é inigualável, apontado ainda a necessidade do turismo se distribuir pelas 19 localidades existentes.
Quando tomou posse, em que estado é que encontrou a Junta de Freguesia de Azeitão? Como é que foi entrar, pela primeira vez, na gestão?
Bom, conforme disse na minha primeira entrevista, e a única que fiz, para O Setubalense, sabia o estado da junta em termos financeiros, mas quanto à sua gestão, tive algumas surpresas. Encontrei o pessoal um bocado desmotivado, mas em dois meses que estamos aqui, ainda é um processo que está a decorrer. Temos muito pessoal de baixa e temos aqui um défice também da parte operacional que, neste momento, estamos a tentar colmatar com o novo orçamento, que já está aprovado, mas dizer que tive algumas surpresas, como é óbvio.
Quais foram?
Na parte financeira podia estar melhor. Não deixaram nada fora do normal, mas, mesmo assim, tinha alguns pagamentos acima de 100 mil euros para conseguir liquidar. Ainda assim, para já, está tudo muito normal.
E essa dívida, era com quem?
Eram compromissos assumidos que já existiam. Há algumas obras que estavam a ser executadas, em alguns casos já na parte final de faturação. Não deixamos de cumprir os compromissos do mandato anterior. Fomos verificar se, realmente, estava a ser executado ou não. E outras coisas são diretas do dia-a-dia, do mês-a-mês. São processos normalíssimos dentro da junta, mas que o executivo anterior, pelo menos, foi-nos dando conhecimento daquilo que estava a passar.
E qual é que é a primeira ação, nesses casos?
A primeira ação, como disse anteriormente, é verificar se realmente está a ser executado ou não. Os funcionários que cá estão, já estavam anteriormente, seja na parte de contabilidade, ou mesmo da parte administrativa, e nós suportamo-nos neles, também, para fundamentar a sua veracidade. Foi um processo normal… adquirimos, fomos verificar e, depois de verificar, efetuamos esses pagamentos que estavam por liquidar, assim como os ordenados.
Já está tudo saldado, então, é isso?
Até à presente data [8 de janeiro], esta junta de freguesia não deve um tostão rigorosamente a ninguém. Inclusive, até já pagamos algumas garantias bancárias que existiam, de algumas obras que foram feitas, que também já estão saldadas. Neste momento, esta junta de freguesia, em termos de dívida, não tem rigorosamente nada para pagar.
Esse facto teve influência no novo orçamento?
O orçamento é baseado nas necessidades que nós achamos que o funcionamento da junta de freguesia necessita, no imediato. E a nossa preocupação imediata é pôr a máquina, como se costuma dizer, a andar. Estamos a apostar, neste orçamento, no parque automóvel, que está a ficar degradado, em equipamentos de primeira necessidade de limpeza e manutenção, que também estão completamente obsoletos.
E onde vai incidir mais?
Durante este último ano do mandato anterior, por exemplo, a questão da varredora não existiu. Houve concursos que foram abertos e ficaram desertos, ainda não percebi o porquê… tenho que ir também fazer uma análise. Neste momento, no novo orçamento, estou a querer adquirir uma nova varredora para a junta de freguesia, em parceria com a câmara municipal, que também, dentro do protocolo, tem que ceder uma varredora para a junta de freguesia. Ainda hoje [8 de janeiro], possivelmente irei falar com o vereador Paulo Maia sobre essa situação, visto ser ele com esse pelouro na câmara municipal. Essa aquisição agiliza muito o nosso trabalho da manutenção das vias, em termos de limpeza. Estamos a investir… temos algumas obras propostas, dentro do curto orçamento que temos.
Qual é o valor?
Temos 2 milhões e 700 mil euros em orçamento, mas, mais de 60 por cento, estamos a falar em custos diretos… ordenados e custos diretos com viaturas, combustíveis… absorve mais de 50 por cento do orçamento, e depois é a gestão do dia-a-dia, como os tais compromissos, protocolos, e também vamos rever os novos protocolos com as associações.
Vão fazer novos?
Vamos fazer protocolos novos porque estes estão completamente fora de prazo, como eu costumo dizer aqui, às vezes, a brincar. Já estão feitos desde 2017 e estamos em 2026. Tudo alterou e os protocolos que existem são os mesmos. Não faz sentido nenhum. Vamos também assumir algumas associações que foram criadas, entretanto.
Tem alguma ideia para impulsionar o potencial da vila de Azeitão?
Com certeza temos uma visão completamente diferente para Azeitão. Tem 69 quilómetros quadrados e 19 localidades. O que é que acontece? Cada localidade é muito específica e depois tudo é muito centralizado, por exemplo, em termos de turismo. Foi agora congratulada Best Tourism Villages 2025 e eu pergunto o que é que foi apresentado para solicitar ou propor a vila para essa distinção… se foi a Serra da Arrábida, o Palácio da Bacalhôa, ou o próprio centro. Eu próprio ainda não consegui munir-me dessa informação. Esse é um passo enorme, mas acho que há muita coisa que se tem que fazer sobre esse capítulo. E a nossa visão vai para muito além disso. Azeitão, sim, para o turismo, mas também Azeitão, sim, para os azeitonenses. Falta tudo.
Tudo, como?
Olhe, não temos espaço para um autocarro. Chegamos à José Maria da Fonseca, em Vila Nogueira, e acabamos por ficar por ali. Não damos conhecimento de toda a envolvência que existe, das várias localidades que Azeitão tem. Quero saber se temos, por exemplo, um roteiro turístico, se temos um roteiro dos vinhos da nossa região. Temos aqui algumas carências.
Se não tiver o que idealiza, quer fazer?
Vou querer fazer. Vai-me dar muito trabalho, mas este primeiro ano, como disse, é para pôr a máquina a andar. E depois, logo a seguir, sim, arranjar as verbas necessárias, protocolos necessários, chamar as entidades privadas para fazerem parte desse processo, que é para nós pormos Azeitão no caminho certo nesse capítulo.
Dentro do pacote de projetos que precisam do apoio da câmara municipal, e dos que o PS possa apresentar para concretizar, qual é aquele que gostaria de ver realizado, especificamente em Azeitão?
Vamos dividir isto por duas partes. Numa primeira reunião que eu tive com a senhora presidente da câmara, Maria das Dores Meira, o que é que acontece? É óbvio que, com as duas partes, não sendo elas da mesma força política, o sucesso de uma, é o sucesso da outra. Eu acho que aqui tem de haver um equilíbrio entre elas. Foi isso que foi transmitido, nessa primeira reunião, e penso que o sentimento foi mútuo. É óbvio que tenho o meu projeto. Enquanto candidato à junta de freguesia, apresentei o meu programa. Uma das coisas que eu gostaria de fazer em Azeitão, e que carece muito dessa situação, é um centro de dia ou um centro de convívio para os idosos.
O que existe é privado…
O que temos é privado e as verbas são muito avultadas. Nos dias de hoje, as reformas que existem não conseguem cumprir com requisitos para o privado. Gostaria de fazer, mas não sendo da mesma cor política, pode ser um entrave, ou não.Temos que falar, temos que debater, temos que apresentar, porque não é só chegar lá e pedir. Temos de demonstrar que também queremos, que somos parte dessa solução e temos verbas para assumir qualquer tipo de compromisso. Pedir não custa. O que custa é executar. Se, de princípio, tivermos um projeto feito, um trabalho já executado, apresentamos à câmara, eu acho que a câmara assume completamente fazer uma parceria com a Junta de Freguesias de Azeitão… porque o sucesso de um, é o sucesso do outro. Azeitão tem uma especificidade diferente das outras freguesias do concelho.
Em que sentido?
Quando transpomos a serra, quer para um lado, quer para o outro, é diferente. O povo é diferente. Eu posso dizer que aqui, à frente das moradias, nós temos, por exemplo, uma moradia que tem 30 metros de calçada para o freguês usufruir dela. Em Setúbal, os 30 metros de calçada, têm um prédio que tem lá 20, 30 ou 40 pessoas. A diferença que existe aqui é que a pessoa é mais exigente, mas o valor de pagamento de taxas também é diferente. Temos um povo muito reivindicativo, e como esperaram a mudança tanto tempo, agora querem tudo no imediato, e também não conseguimos. Estamos aqui há dois meses e a própria casa ainda está a levar alguns ajustes, quanto mais na rua. Já fomos a sítios onde, nos últimos quatro anos, nunca tinham ido. As pessoas reconhecem isso, mas ainda estamos com muita aquém do nosso trabalho.
Quais são as queixas que mais fazem?
Principalmente limpeza, mas depois há sempre duas vertentes. As descentralizações, as delegações de competências, que vem da parte da câmara para a Junta de Freguesia, e depois temos outro problema, que é: neste momento, a nossa freguesia já devia estar redigida sobre mais de 20 mil habitantes. Ainda estamos sobre os censos anteriores, que são 18 700. Este executivo já devia ter nove pessoas. Somos cinco. O número de trabalhadores também, conforme as competências, conforme a área, também poderiam ser mais.
Considera que a junta tem poucos trabalhadores?
Temos um número muito pouco de trabalhadores, um número muito pouco de efetivos para as necessidades do dia-a-dia. Nós não conseguimos absorver toda a informação. Temos duas plataformas de ocorrências, e não são reclamações, são ocorrências.
Quais são?
Uma através da via digital, de um programa que é o Albatroz, e outra via telefone. Ou até o próprio freguês vem aqui [junta de freguesia] e preenche a folhinha para reportar o que é que está mal, o que é que acho que deve ser feito… seja aquilo que for. Temos à volta de 20/30 ocorrências por dia. Temos à volta de 50/55 por cento das ocorrências que, normalmente, são logo reportadas para a parte operacional, e são logo vistas, pelo menos no imediato, para tomar as diligências necessárias. Há proximidade e eu, cada vez, estou mais no terreno, estou mais junto do freguês.
Em que aspetos?
Não vale a pena estar a dizer que vou hoje ou amanhã, ou que vou depois. Aconteceu, estamos no sítio, confrontamos o problema, tentamos resolver de imediato o que é da nossa competência. Porque há muitas ocorrências que pertencem aos serviços. Posso dizer que estive a ver o registo de ocorrências de coisas que faltam, por exemplo, dos Serviços Municipalizados de Setúbal, para efetuar reparações. Já fizeram a reparação da anomalia, da infraestrutura, mas agora falta repor o calçado, ou o pavimento, ou lancil. Temos à volta de 60 ocorrências para reparar. A pessoa não sabe se a competência é da junta, mas é sempre mais fácil reportar à junta.
Falando aqui de um tema que já é muito antigo: a Escola Secundária de Azeitão. O que é que o presidente da junta pode fazer para que esse projeto avance de alguma forma?
Posso dizer aquilo que disse na primeira Assembleia de Freguesia, que é óbvio que eu quero a Escola Secundária em Azeitão. Já do meu tempo. Aquela escola está igual a quando eu lá dei e eu já tenho 52 anos. A minha filha andou lá também, está precisamente igual. O projeto? Eu acho que o projeto, segundo a informação que nos foi transmitida pelo anterior executivo da câmara municipal, estava feito. Ontem [7 de janeiro] estive na reunião de câmara e percebi que o processo está a todo andar. Eu espero que a junta de freguesia seja chamada para dentro do processo. Acho que é assim que deve ser. Da parte da junta, e eu enquanto presidente, estou aqui disponível para aquilo que necessitarem, e também para dar a minha opinião. Agora, não conheço o projeto.
O pavilhão desportivo, segundo as informações que foram divulgadas pela presidente do Município, na reunião que menciona, será dentro do recinto escolar.
Acho que sim. Nós, enquanto Partido Socialista, e quando estivemos na oposição, sempre estivemos contra o novo pavilhão em Azeitão ser fora da escola. Fazer um fora da escola, sim, para dar apoio ao movimento associativo, mas para dar apoio à escola, não. Porque não faz sentido, no inverno, as crianças saírem da escola e fazerem um trajeto de 500 metros a um quilómetro para irem praticar desporto dentro de um pavilhão. Sempre fomos contra essa situação, e continuo a estar contra. Ouvi de bom grado que o pavilhão irá ser feito dentro do espaço da escola. Gostei, vamos ver da apresentação à sua execução, e o tempo que vai levar. Se vamos continuar, outra vez, aqui com outros timings, à espera da nova escola.
E para terminar… O que é que o fez candidatar-se primeiramente a presidente da Junta de Freguesia de Azeitão?
É um longo processo. Já estou na Assembleia de Freguesia, salvo erro, há três mandatos. E o que me chamou para aqui foi a região, mesmo. Gosto de Azeitão, nasci em Setúbal, mas com dois dias vim para Azeitão. Considero que o meu contributo maior, enquanto azeitonense, era este. Concorrer porque era a altura certa, acho eu. Temos de amadurecer politicamente. Temos de ter sentido de responsabilidade e saber que chegou o nosso tempo de assumir aquilo que temos que assumir.
Acha que foi o momento certo?
Acho que foi o momento certo. Fui aprendendo ao longo destes três mandatos o que era a gestão da junta. Fui aprendendo também o que era a política e acho que a política, na Junta de Freguesia, é o que menos interessa.
Então, o que interessa mais?
O que mais interessa é resolver os problemas da freguesia. É óbvio que tem sempre a parte política, mas eu acho que essa parte política mete-se sempre em segundo plano.
Como sempre pensei e continuo a pensar quanto à Junta de Freguesia, principalmente nestes últimos quatro anos, a coisa estava a dar, mas não estava a dar bem. Acho que tinha oportunidade, até com o conhecimento que tenho da parte da Construção Civil e das obras públicas, e seria o momento exato para entrar. Não vou fazer tudo bem, como é óbvio. Também quando entrei nisto também não pensei em fazer tudo bem, têm que existir alguns erros para melhorar, mas o que me fez vir para a junta foi mesmo ser de cá e gostar da nossa região e conhecê-la .Não há cantinho que eu não conheça.
O gatilho principal foi, pelo que percebo, o amor pela sua vila.
Basicamente. Acho que a gestão da região tem que ser feita por alguém que a conheça. Eu acho que é o mínimo que se pode pedir. Não quer dizer que quem vem de fora não tenha também a oportunidade de vir, gerir e pode ter uma visão completamente diferente da minha. Acho ainda que estamos a perder um bocado a nossa raiz. Enquanto azeitonense, também senti-me no dever de ir buscá-la novamente.
Que raízes são essas?
Azeitão tem muita história, tem muita cultura… nós somos um povo de cultura. Desde a música, ao teatro, seja aquilo que for, Azeitão tem a sua raiz, até a começar pelo próprio Sebastião da Gama. Acho que apostei bem, até porque ganhei, e apostei no momento certo para ser candidato. E fez-me refletir. E alguns pedidos também, como é óbvio.
As pessoas pediram para ser candidato?
Algumas pessoas da região disseram que se reviam em mim, que apostavam em mim, não sendo da mesma força política, e alguns não têm nada a ver com política, sequer, mas também me impulsionaram com as palavras deles e com os bocados que fui tendo com a população. O azeitonense do dia-a-dia deu-me cada vez mais força para assumir aquilo que assumi. Tenho de partir por aí, e recuperar aquilo que perdemos.

