Terça-feira, 30 Junho 2026
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Lideranças que olhem para a frente

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Presidente da Juventude Popular de Setúbal

“Não acredite em tudo o que pensa” é o título de uma obra de escrita por autores conotados com a esquerda e a esquerda radical portuguesa, lançado no período em que Portugal esteve sob assistência financeira e que alegadamente serviria para “desfazer mitos na era da austeridade”. O título passou-me pela memória este último sábado, pois pareceu-me que podia adequar-se muito bem no que ouvi no mesmo dia, na escola secundária Sebastião da Gama, na sala que recebe analogamente o mesmo nome, onde se juntaram duas dezenas de jovens para ouvir o economista Nuno Palma(que nada tem que ver com a esquerda).

Se em algum momento alguém achou que pensar o país, e em concreto pensar no porquê de sermos o país do eterno potencial não concretizado, são atividades que não geram interesse na juventude, desengane-se. Estamos interessados e preocupados com o paradigma em que nos encontramos. Ainda para mais quando, como ficámos a perceber, muito daquilo que dávamos como certo e em que acreditávamos por confiarmos nas instituições, afinal tem uma versão que nos foi omitida.

Ficarmos a saber que Portugal recorrentemente se foi sabotando por uma perpetuação de escolhas e decisões erradas, umas mais intencionais que outras, e que tem sido apanágio de quem lidera o país encontrar sempre uma boa desculpa para mexer em tudo de forma a ficar tudo na mesma, foi notório que gerou perplexidade e frustração na sala Sebastião da Gama.

Quem é que, depois de frequentar o ensino obrigatório em Portugal, questiona a relevância de figuras como o Marquês de Pombal ou as catalogações feitas à política do regime salazarista? Seguramente muito poucos. Daí que nesta sessão com Nuno Palma, a introdução que a maioria das perguntas colocadas pela audiência tenha sido “mas na escola ensinaram-me exatamente o contrário”.

Questionar é sem dúvida um exercício saudável e útil, sempre que feito com seriedade e com fundamentação. E foi isso que Nuno Palma fez e continua a fazer nas suas duas obras, “As Causas do Atraso Português” e “O Vício dos Fundos Europeus”. Por encontrar fundamentação, desfaz muito daquilo em que nós, como sociedade, acreditamos, acabando por sofrer resistência ativa a que as suas ideias circulem de forma igual às de qualquer outro académico. Questionar o status quo comporta coragem e muita capacidade de aguentar ataques.

No entanto é esse espírito, acredito, e pareceu-me que muitos dos que assistiram passaram também a acreditar, que precisamos que grasse nas nossas lideranças políticas. As de hoje, mas também as de amanhã, da qual fazem parte muitos dos jovens que estiveram presentes na iniciativa promovida pela Juventude Popular de Setúbal.

O nosso país, e com isto quero dizer, as pessoas deste país, precisam urgentemente de quebrar o ciclo de lideranças políticas que gerem Portugal a olhar para o chão. Não é de agora, não é nenhuma novidade do pós-25 de abril, nem de nenhuma das lideranças dos últimos 150 anos. É um ciclo que se perpetua há muito mais tempo. Só que se agora já temos capacidade de olhar para trás com mais frieza e detetar padrões que nos condenam, é altura de os quebrar.

Governar não pode ser um exercício feito sem olhar para o horizonte, isto é, sem pensar a médio e longo prazo. Não é sustentável que se tomem decisões a pensar apenas na sobrevivência, que se façam escolhas a pensar somente em ganhos ou perdas de popularidade ou no conforto ou desconforto pessoais.

Quando questionado sobre o que podiam os jovens fazer para mudar alguma coisa de significativa no país, para que se alterasse o rumo de estagnação empobrecedora, dizia Nuno Palma, com ironia, mas ao mesmo tempo sem deixar de ser sincero, “vão-se embora”. E a verdade é que, sob pena de cada vez mais jovens começarem a concordar com esta fatalidade, é necessário mais do que nunca passarmos a ter lideranças que pensem além do seu tempo, além dos seus interesses e além das urgências do dia-a-dia.

Para isso, acredito que a Juventude Popular de Setúbal deu no último sábado, e continuará a dar, a sua contribuição, aproximando os jovens, alguns dos quais futuros líderes do país, de pessoas que investigam com profundidade como Nuno Palma. Este, com factos e pragmatismo, influencia-os a confrontarem as fragilidades das suas próprias crenças, levando os a duvidar das suas certezas. Esta é, acredito ainda, uma forma de semear um futuro diferente.

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