Secretário-adjunto da Juventude Popular de Setúbal e Conselheiro Nacional da Juventude Popular
Há datas que passam discretas, como se não quisessem incomodar o presente com o peso da história. E depois há aquelas que, mesmo sem alarido, nos convidam a parar para perceber de onde vimos. O centenário da criação do Distrito de Setúbal é uma dessas datas.
Cem anos não se resumem a uma marca redonda no calendário. São gerações inteiras que nasceram, cresceram e partiram entre a nossa serra e o nosso rio, entre o cheiro do peixe fresco e o silêncio das vinhas ao entardecer. São histórias que se cruzam nas ruas de Setúbal, nos mercados de Almada, nas praias de Sesimbra, nas planícies do Montijo ou nas margens tranquilas do Sado.
Criado num tempo em que o país se reorganizava administrativamente, o distrito veio dar forma política a uma região que já tinha alma própria. Porque Setúbal nunca precisou de decreto para existir tendo sido sempre uma região de gente trabalhadora, de mãos marcadas pelo sal, pela terra e pelo esforço. O poder político apenas reconheceu o que já era evidente: aqui havia uma identidade distinta, feita de resiliência e de pertença.
Ao longo de um século, muita coisa mudou. As indústrias cresceram e desapareceram, novas pontes ligaram margens outrora distantes, e a proximidade a Lisboa trouxe oportunidades, mas também desafios. Contudo, há algo que permanece. A forma como esta região continua a equilibrar tradição e transformação. Ainda há barcos que saem de madrugada, ainda há festas populares que enchem as ruas, ainda há um orgulho discreto, mas firme, em dizer “vou às festas da minha terra”.
Talvez seja isso que mais define este centenário, que não é apenas uma celebração institucional, mas um reconhecimento de uma continuidade invisível. O distrito pode ter cem anos, mas a sua essência é muito mais antiga e, ao mesmo tempo, surpreendentemente atual.
Num tempo em que tudo parece efémero, olhar para trás pode ser um exercício de resistência. Não para ficar preso ao passado, mas para compreender melhor o presente. E, quem sabe, imaginar o futuro com mais clareza.
Mas compreender o presente implica também reconhecer os desafios que hoje marcam a vida quotidiana no distrito de Setúbal.
A Segurança continua a ser uma preocupação relevante em alguns concelhos, com registos de criminalidade que, segundo dados da Administração Interna, têm vindo a exigir respostas mais eficazes ao nível da prevenção e proximidade policial.
A Mobilidade é outro dos pontos críticos, não apenas nas ligações para fora do distrito, mas também dentro dele, com limitações na oferta de transportes públicos e dependência significativa do automóvel.
Na Saúde, persistem dificuldades no acesso a cuidados, nomeadamente na falta de médicos de família e na pressão sobre unidades hospitalares, uma realidade reconhecida em relatórios oficiais e particularmente sentida pelas populações mais jovens e pelas famílias. Já na habitação, o aumento acentuado dos preços tem dificultado o acesso a casa, sobretudo para os jovens.
Cem anos depois, o Distrito de Setúbal não é apenas uma divisão no mapa. É um território com memória, mas também com responsabilidades no presente. A forma como estes desafios forem enfrentados determinará não apenas a qualidade de vida das populações, mas a capacidade de fixar novas gerações e garantir um futuro sustentável para a região.
E talvez o verdadeiro centenário não esteja apenas nos arquivos nem nas datas oficiais, mas na forma como se responde ao tempo que corre. Entre o rio e o mar, continuam a escrever-se histórias. O que está em causa é assegurar que também as próximas possam ser vividas com dignidade e oportunidade.

