Recebeu um quadro, como os que eram usados na escola, quando ainda era criança. Essa é a lembrança que Ana Teresa Vicente, presidente do Município de Palmela, recorda como a mais antiga sobre o desejo de ser professora quando se tornasse adulta. Além disso, sublinha o vincado sentido de justiça que sempre teve, bem como a assertividade — presente até nas brincadeiras com as primas.
Em entrevista ao Revela Arrábida, a autarca, eleita pela CDU nas eleições autárquicas 2025, realizadas a 12 de outubro, aborda o percurso que desenhou, desde lutas estudantis, à licenciatura em Sociologia, passando pelo gosto em fazer serviço público, de onde surge a vida na política, tendo sido a [mulher] presidente eleita mais jovem do país.
Ana Teresa Vicente fala ainda dos desafios que tem para enfrentar durante os próximos quatro anos, bem como as medidas que espera defender e aplicar em várias áreas, no concelho de Palmela.
Como é que o caminho na vida política começou? Sempre quis trabalhar na política, tinha outro sonho quando era mais nova, de trabalhar em algo completamente diferente?
Bem, o que me lembro, do meu sonho de criança, é uma coisa difusa, mas muito comum. Lembro-me de querer ser professora. A dada altura, os meus pais ofereceram-me um quadro, que imitava os quadros antigos, com a diferença de que era uma peça com um pé alto. Portanto, aquilo ficava à minha altura. E lembro-me que mal teria acabado de entrar na escola e imediatamente comecei a ensaiar as minhas primeiras lições como professora, usando o quadro. Porquê? Porque adorava escrever no quadro. A professora, normalmente, é que estava no quadro, não é? Nós íamos lá de vez em quando, chamados, para mostrar qualquer coisa, mas a professora estava no quadro e tenho esta imagem muito presente na minha memória, daquele quadro, e o quanto eu gostava de lá estar, e lembro-me que com isso, desejava ser professora. Mas isso faz parte da infância remota.
Nasceu em Palmela?
Nasci em Setúbal. Vivi uma boa parte da minha vida em Praias do Sado, até aos meus 18 anos, mais ou menos, até à altura de ir para a faculdade, que era onde os meus pais moravam, na altura. Quando fui para Lisboa, para a faculdade, comecei a ficar em Lisboa e depois a casa dos pais começou a ser só ao fim de semana. Tive a minha primeira casa sozinha aos 25 anos.
Que curso é que tirou?
Sociologia, na opção de Sociologia Política, porque na altura havia ramos diversos. Fiz a pós-graduação em Sociedades e Políticas Europeias, no ISCTE, e, mestrado, e, muito mais tarde, ainda entrei no Doutoramento de Políticas Públicas, já prestes a sair da câmara [municipal], políticas públicas, mas de facto, aí, já não senti energia e condições para concluir. Tive pena, porque é uma área muito interessante, mas pronto. Nesse momento estava a mudar para uma atividade completamente diferente, porque tinha acabado de sair da câmara e foi muito difícil aprender tantas áreas novas e, ao mesmo tempo, voltar à faculdade, à noite.
Mas ainda recuando um bocadinho, como é que se faz a transição do sonho de professora para socióloga?
Acho que há aqui algumas proximidades. No fundo, eu sempre fui uma pessoa muito interventiva. Na primeira fase da minha vida, provavelmente, muito no contexto familiar e de amigos. Lembro-me que era, realmente, muito assertiva nas brincadeiras com as primas. Éramos quatro, mais ou menos da mesma idade, e talvez mantivesse um bocadinho o traço com amigos e amigas, sobretudo, e, de algum modo, lembro-me de sempre ter tido algum sentimento sobre justiça, alguma necessidade de sentir que havia justiça nas coisas. Talvez isso tenha feito com que eu rapidamente tenha entrado em atividades que, indiretamente, já eram uma forma de participação política.
Por exemplo?
Participar no jornal “Parede na Escola”, como tantas outras pessoas. O nosso chamava “Silêncio, não obrigado”, e era assim um título revelador, e, depois disso, participei em projetos associativos, sempre muito em torno da escola e de algumas das lutas estudantis. Nos festivais, lembro-me de um momento marcante na minha vida, sendo o Festival da Paz, no Carvalhal, que foi uma coisa icónica na nossa região e até no país. Julgo que estaríamos em 1982, ou coisa assim. Tudo isso foi muito importante… as experiências, o contacto com pessoas que se preocupavam, com projetos, e mais tarde vem a preocupação com as guerras e o uso de armas nucleares, que era algo que nos assustava a todos, na altura. Lembro-me de sempre ter tido preocupações sociais e preocupações de justiça. No fundo, isso significava alguma preocupação com a política porque percebemos, depois, que a política, de facto, diz respeito a todas as dimensões da nossa vida. E, então, faço a escolha muito dividida entre Psicologia e Sociologia, que era a minha grande divisão, e faço a escolha pela Sociologia e nunca mais voltei atrás.
E como é que surge a entrada na vida política “pura e dura”?
Falei do Festival da Paz porque, realmente, na sequência do Festival da Paz, comecei a participar mais ativamente em lutas estudantis.
Consegue destacar algum momento?
Há um momento tristíssimo numa luta dos estudantes nos anos 80 em que houve determinados aspetos dos direitos dos estudantes que foram postos em causa e eu participei numa manifestação estudantil, no Ministério da Educação. Houve uma agressão da polícia e só me lembro da grande preocupação que tínhamos com um colega que tinha uma grande limitação física — e, curiosamente, mais tarde, vim encontrar esse colega nos bombeiros de Pinhal Novo, que era o Américo — e era um lutador. Só me lembro de estar em pânico porque nós fomos encurralados na Avenida 5 de Outubro, no edifício do Ministério, e de sentir medo pelo Américo. Tenho esta imagem muito presente. Senti tudo daquilo como uma profunda injustiça. Então, inscrevi-me na JCP (Juventude Comunista Portuguesa).
Tinha que idade?
Entrei com 16 anos. Fui eleita, ainda como independente, nas listas da CDU, na Assembleia Municipal de Setúbal, em 1985. Foi o ano em que a CDU perdeu a Câmara de Setúbal para o presidente Mata Cáceres, mas, nessa altura, também já estava na faculdade e, portanto, foi assim uma passagem relativamente breve. Depois, na faculdade, mantive militância política ativa. Acabei a faculdade, comecei a trabalhar, e abrandei um bocadinho a militância política porque é difícil.
E começou a trabalhar na área da Sociologia?
E não só. Comecei a trabalhar no terceiro ano do curso, não diretamente nas áreas da Sociologia, mas depois complementei isso com a intervenção direta em áreas da Sociologia, nomeadamente com a constituição de uma pequena empresa na área dos estudos de opinião, inquéritos, e essas coisas todas.
Fundou uma empresa sua?
Sim, minha com outras duas colegas e um amigo. Portanto, trabalhei como técnica, e, em 1993, no âmbito de um desses estudos que fiz na altura, por acaso, aqui para Palmela, o então candidato Carlos de Sousa convidou-me, meio a sério, meio a brincar, para vir trabalhar com ele. Eu, nessa altura, estava a trabalhar na área da Comunicação, numa empresa, como Técnica Superior, em Setúbal. Então assim, de repente, tive aquele desafio, aceitei, vim trabalhar para a Câmara de Palmela, como adjunta do Carlos Sousa. Despedi-me da empresa. Claro que os outros projetos também acabaram porque as autarquias são uma coisa avassaladora e, portanto, não há tempo para mais nada. Fui adjunta quatro anos e fui vereadora quatro anos. Depois fui presidente 12 anos e depois saí. Depois fui trabalhar como Diretora de Desenvolvimento Estratégico de uma pequena seguradora e, nos últimos oito anos, como diretora-geral, até agora, que fui eleita presidente de Câmara Municipal de Palmela.
Apesar de ser, agora, quase um “não assunto”, em muitas matérias, como é que era antes vista uma mulher na política?
A novidade não era ser uma mulher na política, mas sim que, por exemplo, já fui a presidente de câmara mais nova do país, na altura com 35 anos, sendo mulher. E sim, não era comum, de facto, no país. Éramos muito poucas mulheres, mas também se diga, em abono da verdade, que foi uma época de grandes mulheres na política. Recordo-me, por exemplo, Maria Emília de Souza, em Almada, era uma referência para todos nós e foi presidente durante muitos anos e, realmente, esta região foi um bom exemplo. Teve várias mulheres presidentes de câmara.
Mas sentia alguma descredibilização por ser mulher? Alguma diferença? Ainda que assim, muito subtil, de algum modo?
Diferença, diferença… havia. Acho que as pessoas olharam todas com um misto de alegria e de expectativa, em simultâneo, e alguns, eventualmente, até com algum descrédito. Mas o que é facto é que nunca senti isso diretamente. Trabalhava, senti-me reconhecida. Nunca senti nenhuma limitação desse tipo, mas há uma coisa, que é sentir que, nesta região, o facto de haver uma mulher presidente de câmara, pode ter contribuído para a participação de muitas outras mulheres noutros setores de atividade.
Porque é que diz isso?
Porque é curioso. Existia, e continua a existir, o número de mulheres a participar nesta região, muito expressivo. Mulheres muito interessantes em atividades económicas, desde logo, por exemplo, a Ermelinda de Freitas. Já havia também a engenheira, nora do senhor Horácio, a Manuela, uma mulher diferente, mas muito participativa. Noutro contexto, a Fernanda Esfola, na Junta de Freguesia de Marateca, um bocadinho mais tarde. Muitas mulheres, também, dirigentes de ranchos, ou seja, em algumas das coletividades importantes do nosso concelho. Quer dizer, acho que isto estimulou, ao mesmo tempo, e teve um papel importante… Não tenho nenhuma pretensão de achar que isso fez com que [isso acontecesse], mas talvez, indiretamente, tenha contribuído para a afirmação de outras mulheres, noutros setores de atividade.
E fazer com que a diferença, se existisse, se esbatesse?
Claro. Hoje é visível homens e mulheres, mas acho que temos estilos diferentes. Isso, para mim, continua a ser uma verdade.
Em que aspeto?
É mesmo uma questão de estilo, sabe? Olhe, acho que nós, quer dizer, não sei se somos todas assim, mas fazemos muitas coisas, ao mesmo tempo, na nossa vida, não é?
E há alguma sensibilidade, talvez.
Sim, fazemos muitas coisas, temos de pensar em muitos assuntos ao mesmo tempo. Fui eleita presidente de câmara com um filho pequeno, sozinha. Em todas as minhas reuniões, e em todas as minhas atividades, o meu telemóvel estava sempre presente, e à mínima coisa, lá ia eu a correr, acudir uma criança pequena, que está no infantário, ou que está na escola primária, ou que está com febre… percebe? Continuei a fazer tudo isso. Tive também outras circunstâncias da vida, nomeadamente o apoio aos meus pais, idosos, e nunca deixei de fazer tudo o que fazia. Conheço homens fantásticos, a fazerem muitas coisas importantes nas suas vidas, mas esta multiplicidade de tarefas que nós somos capazes de fazer, é algo muito nosso. Acho que, depois, a relação com as nossas equipas também reflete um bocadinho isso.
Como, por exemplo?
Gerir com preocupações pela vida, por um lado, pelo desempenho, claro, mas, por outro lado, com a vida familiar das pessoas, com as horas. Tenho muito respeito, por exemplo, com a marcação de horas de reuniões. Não as fazer em horas em que, em princípio, já é incómodo para os outros. Tenho uma liberdade e uma condição de vida que muitas outras mulheres não têm. Então acho que não as devo penalizar no desempenho da sua função. Mulheres e homens, também há homens que têm de ir buscar as crianças ou fazer o jantar, não é? E não me parece que os homens, em geral, pelo menos os homens com quem trabalhei, e sempre trabalhei com homens, não me lembro de os ver com esta preocupação. Acho que há uma harmonia que nós precisamos de sentir. Isto não me retira assertividade, acho eu, mas diria que, enfim, tenho uma forma de estar diferente.
Havia alguma coisa que faria de diferente na sua vida, até agora?
No essencial, não. Hoje olho para a forma como os pais e as mães desta nova geração estão, com as suas crianças, com os seus filhos, e talvez gostasse de ter tido um bocadinho mais de tempo para estar com o meu… mais tempo… mas só posso dar graças pelo filho que tenho e pelas condições em que cresceu, o homem que se tornou, etc., e, não… no essencial, não. Fiz esta a opção muito arriscada na minha vida, agora, recentemente, mas com um grande sentido de dever, por um lado, e de prazer por outro. Acho que isso também me dá uma enorme liberdade. Fi-lo por dever, porque acho que devia isso a quem acha que eu sou capaz… aos meus camaradas, amigos, às pessoas desta terra, que me pediam que voltasse, mas também por prazer, porque eu gosto muito disto.
E como é que surge o convite para regressar à presidência da Câmara de Palmela?
Foi um misto de circunstância. De muitas pessoas, à minha volta, a dizerem que devia voltar, que eu fazia falta em Palmela.
Porque é que acha que lhe pedia isso [para voltar]? Acha que fez a diferença ao ponto de as pessoas pedirem para voltar?
Isso é uma pergunta que, se responder que sim, sou presunçosa, e se disser que não, também não sou muito realista. Não sei. Não sei se o meu trabalho fez a diferença, mas eu junto vários fatores nestas coisas. Por um lado, acho que sim, terei deixado, digo eu alguma memória. Fui eleita por três vezes, com a maioria absoluta, sempre com o número de votos crescente. Portanto, alguma memória terá ficado. Depois, acho que são as circunstâncias. Ou seja, vivemos um tempo em que eu acho que muita gente sente que há determinados valores que fazem falta na política e, talvez, para muitas pessoas, eu possa ser sinónimo de alguns desses valores. Daí o incentivo, daí a insistência e daí o pedido. Mas o que interessa aqui, essencialmente, é que eu própria acredito nisso.
Acredita no quê?
Acho que nós vivemos um tempo em que temos mesmo de fazer valer valores. Alguns são muito caros à democracia, pelos direitos humanos, pelas diferenças, à capacidade de integrar, de incluir, de trabalhar com todos, respeitar o outro e saber colocar-se no lugar do outro, que é uma coisa absolutamente indispensável. Acredito nestes valores. Não quero acreditar nos valores que me entram porta dentro, como o egoísmo, intransigência, intolerância, valores retrógrados, valores que não preservam a liberdade, podem não preservar a democracia. Sinto que, hoje, tenho obrigação de lutar por isto, também. Pelos valores em que acredito.
Hesitou, em algum momento, em aceitar o convite? Teve de ponderar ou foi algo que fez prontamente?
Hesitei e muito porque foi uma mudança de vida com grande expressão. A todos os títulos. Estava bem e confortável, com uma equipa em quem confiava e que confiava em mim. Com um nível de exigência que não é, apesar de tudo, comparável à exigência que tem um presidente de câmara, com uma condição remuneratória que era muitíssimo mais vantajosa do que a condição de remuneração que tem um presidente de câmara, além do sentido de responsabilidade desta missão. Claro que hesitei, mas acho que foi aí que o prazer venceu. Após avaliar tudo isso, pensei “eu gosto mesmo do serviço público. Se, nesta fase da minha vida, tenho condições para poder fazer esta escolha, porque há fases em que não temos condições para escolher, então eu escolho”, e escolhi.
E como é que foi o regresso? Está tudo igual? Está tudo muito diferente?
Está tudo diferente. Tudo, tudo, tudo, tudo. Está mesmo diferente. O mundo está muito diferente. Há muitas pessoas desencantadas. Há muitas pessoas agastadas, a acharem que já não vale a pena e a viver daquele lema, e que me custa sempre muito, com todo o respeito, mas que é “quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais”, e fico muito consternada quando oiço isso. De facto, esse sentimento é cada vez mais comum e preocupa-me imenso. O que eu queria aqui era, exatamente, dizer que nós temos de continuar a acreditar nas pessoas. É a humanidade que tem a grande responsabilidade por aquilo que vem acontecendo no mundo, mas também só à humanidade pode caber a grande responsabilidade de transformar esse mundo e não nos deixar arrastar para o abismo, e, desse ponto de vista, eu continuo a acreditar nas pessoas.
E tem uma perspetiva local, de proximidade.
Exato. Acredito que as comunidades locais, onde as pessoas têm a oportunidade de se conhecer, e têm o rosto, um nome, e um papel, acredito que, localmente, façamos a diferença, e que, com o somatório do local, possamos ter uma intervenção um bocadinho mais global. Este é sempre o meu lema e é por isso que acho que o meu centro de intervenção é o Município de Palmela e é o território de Palmela. São as gentes do concelho. Mas, também, sempre disponíveis e atentos ao que se passa na região em que estamos.
Em que sentido?
Olhe, nesta decisão que acabámos [28 de dezembro] de deliberar, a participação na Comunidade Intermunicipal (CIM), a importância que eu atribuo à própria Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), a importância que eu atribuo à Área Metropolitana de Lisboa (AML), porque acho que é isto. A partir da comunidade local, temos de ir acrescentando para que o local se torne um bocadinho mais global e é aí que podemos fazer alguma diferença. Continuo a ter essa esperança. Claro que vivemos num mundo em que há um retrocesso muito grande. Há valores, do meu ponto de vista, que vão fazer mal às comunidades, às regiões ao país, como estão a fazer no mundo. Há valores xenófobos, racistas, de intolerância, fascistas, em alguns aspetos, que provocam aquilo a que nós assistimos… Guerras que não têm fim, destruição de povos e de territórios sem igual. Continuo a ter uma preocupação muito grande com aquilo que se passa no mundo. Trabalhar no Município de Palmela, trabalhar pelas gentes de Palmela, é o meu pequeno contributo.
Tendo em conta a globalidade, mas tratando-se Palmela do “nicho”, quando falamos do mundo, quais é que são os projetos que tem traçados?
Quero cuidar do nosso espaço público. Quero que Palmela se torne um território ainda mais bonito e isso requer intervenção humana sistemática das autarquias. Quero ver Palmela como um território que continua a ser referência em termos de políticas culturais e políticas educativas. Palmela é um exemplo nesta região, nessas duas matérias. Quero ver Palmela com melhores condições de mobilidade, porque estamos no centro da Península de Setúbal. Fazemos fronteira com todos os outros concelhos. Por aqui passa tudo. Palmela consegue uma melhor mobilidade e para isso tem de conseguir novas acessibilidades. Lutamos arduamente pela construção de vias que são essenciais para garantir essa maior acessibilidade.
Vai continuar a batalhar pelas variantes?
Claro. Quero ver em Palmela, ainda no âmbito dos tais espaços públicos, com mais qualidade, mais espaços verdes para serem fruídos pelas pessoas, vividos no dia-a-dia. Espero conseguir dotar, neste caso, a câmara municipal, de novos recursos em termos de instalações, porque precisamos disso e reforçar as condições que temos para exercer o serviço público, porque acredito que realmente o serviço público continua a ser a chave de muitas das questões que contribuem para a qualidade de vida dos cidadãos.
Quais é que vão ser os maiores desafios que vai enfrentar?
Desde logo esta questão de conseguirmos investimentos da Administração Central que são indispensáveis. Quer dizer, as variantes não podem ser construídas pelo Município de Palmela. Nós contribuiremos com estudos, com projetos, com complementos à intervenção, mas não podem ser feitas só pelo Município de Palmela.
Mas já têm algo fundamentado?
Estamos a trabalhar na fundamentação, na recolha de dados, no cenário que precisaríamos de ver concretizado. Repare, o modelo tem determinados circuitos e percursos de recolha, não é? E nós estamos a chegar à conclusão de que precisamos de outros percursos. Precisamos de recolher mais. Precisamos de uma maior frequência na recolha. Não podemos ir uma vez por semana recolher monos, porque a vida das pessoas não se compadece com isso. As pessoas fazem uma mudança hoje, não estão para ter os monos em casa a semana inteira para avisar a câmara e colocarem na rua no dia em que que se vai recolher. Tudo isto tem de ser repensado e é também um dos maiores investimentos que nós temos à frente neste momento.
Já foi colocada em cima da mesa a hipótese de o Município de Palmela deixar a AMRS. Qual é a sua visão sobre essa probabilidade, tendo em conta que tem sido um cenário noutros concelhos da região?
Bem, eu só posso lamentar isso. Como tive a oportunidade de dizer, há um trabalho feito nesta região que só aconteceu porque tínhamos uma associação de municípios que conseguiu ir integrando os municípios e conseguiu integrar, no fundo, os diferentes interesses, até porque aqui estamos uns virados para o Tejo, outros virados para o Sado, outros no meio e, de facto, a AMRS conseguiu, no fundo, ter projetos que, do meu ponto de vista, têm interesse para a região no seu todo. Fundamentaram e estão patentes nos estudos que existem e que estão disponíveis, à consulta na Associação de Municípios, fundamentaram opções que estão hoje a ser tomadas neste país.
Pode dar exemplos?
Reparem… o aeroporto, tal como se prevê, na localização, a terceira travessia do Tejo, a importância dos hospitais que defendemos para esta região e pelos quais alguns deles ainda nos batemos, nomeadamente, alguns municípios, estão inscritos em todos estes documentos, o Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Península de Setúbal (PEDEPS), portanto, há tanto trabalho feito. Há municípios que têm as práticas que têm, do ponto de vista desportivo cultural, porque participaram em projetos concebidos no âmbito da AMRS que só aconteceram porque havia partilha de técnicos. Naturalmente. cada um de nós tem as suas competências e os seus recursos humanos, mas a possibilidade de diferentes recursos humanos, de diferentes organizações, discutirem e construírem projetos é qualquer coisa de incomparável. Acho que um conceito de associação de municípios faz falta e vai continuar a fazer falta.
Mas qual é o comentário que deixa quanto aos municípios que saíram e querem sair?
Acho que querer sair é uma atitude um bocadinho circunstancial e o circunstancial significa que tem que ver com as circunstâncias e eu acho que nós não podemos trocar os grandes objetivos que temos e os valores mais altos que podem requerer união na região, e até no país, enfim, por pequenas alianças táticas, mas cada um fará como entender. Da minha parte, ressurgirei até onde até conseguir.
Foi eleita vice-presidente do Conselho Metropolitano de Lisboa. Esse cargo pode trazer algum benefício, de forma indireta, para o concelho de Palmela? É mais fácil levar propostas? Como é que vai funcionar?
Não conheço ainda bem os meus pares, neste contexto, mas o que eu espero é que o conselho metropolitano consiga continuar a fazer valer este conjunto que diz respeito às necessidades e aos interesses da Área Metropolitana de Lisboa, porque a verdade é esta: tudo o que se passa nos nossos territórios, hoje, não começa e acaba nos nossos territórios. Temos uma relação profundíssima com Lisboa. Nós temos uma relação imensa com pessoas que ainda vão para além de Lisboa, para trabalhar, por exemplo, e o contrário também é verdade. Chegam pessoas de Sintra para trabalhar em Palmela, na Autoeuropa, por exemplo, e noutras empresas. A área Metropolitana de Lisboa tem a dimensão que tem, tem o valor que tem, exatamente porque tem sabido manter-se como região. Claro que há desigualdades e a criação da CIM previu e procura, de certo modo, ultrapassar uma dessas desigualdades, que é a candidatura diferenciada a fundos comunitários, mas a população desta região circula na Área Metropolitana de Lisboa e, portanto, vive na Área Metropolitana de Lisboa. E eu espero, com a experiência de Palmela, levar à Área Metropolitana de Lisboa também aquilo que acrescenta à visão de território metropolitano.

