Presidente da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS)
A história de Setúbal é inseparável da história do seu porto. Desde os tempos em que a cidade se afirmava pela pesca e pela indústria conserveira, até à atualidade marcada pela inovação tecnológica e pela transição energética, o Porto de Setúbal tem sido uma das âncoras do desenvolvimento económico e social da região. Hoje, mais do que nunca, o porto assume-se como uma infraestrutura estratégica para o país e um polo de dinamização regional, profundamente enraizado no território e comprometido com o futuro.
Localizado num estuário de excecional valor ecológico e económico, o Porto de Setúbal é um porto natural, seguro e versátil. Dispõe de 11 quilómetros de extensão, 11 terminais — industriais e comerciais — e um estaleiro naval de referência. Opera 24 horas por dia, 365 dias por ano, garantindo um fluxo contínuo de mercadorias, veículos e matérias-primas essenciais à indústria nacional. Em 2024 movimentou cerca de 6,6 milhões de toneladas de carga, incluindo 310 mil veículos e 160 mil TEU, provenientes de 82 países.
O ritmo de crescimento manteve-se em 2025. Até setembro, o Porto de Setúbal já tinha movimentado 4,68 milhões de toneladas, distribuídas por 2,04 milhões nos granéis sólidos, 1,17 milhões na carga contentorizada, 845 mil toneladas na carga geral fracionada, 251 mil toneladas no segmento dos granéis líquidos, tendo ainda movimentado cerca de 250 mil viaturas, o que significou um crescimento de 8,02% no segmento Ro-Ro. No total, 117 023 TEU passaram pelos terminais setubalenses, traduzindo um aumento de 1,07% em relação ao período homólogo. Estes números refletem a solidez e a diversificação da atividade portuária, sustentada por 1.215 escalas de navios até ao final do terceiro trimestre.
O Porto de Setúbal é hoje uma das infraestruturas mais relevantes para a economia do distrito e uma referência no sistema portuário nacional. A sua atividade gera milhares de empregos diretos e indiretos e sustenta um ecossistema empresarial diversificado, que inclui operadores logísticos, transportadoras, estaleiros, agentes marítimos e prestadores de serviços. O impacto do porto estende-se a toda a Península de Setúbal, sendo essencial para o funcionamento das cadeias de abastecimento regionais e para a competitividade das indústrias instaladas no território.
Mais do que uma infraestrutura de movimentação de carga, o Porto de Setúbal é um ponto de confluência de cadeias logísticas, industriais e tecnológicas. Com acesso direto às redes ferroviária e rodoviária, situa-se a apenas 40 minutos de Lisboa, duas horas da Extremadura espanhola e seis horas de Madrid, uma localização que o coloca no coração do corredor atlântico ibérico, com uma posição geoestratégica ímpar para a exportação e distribuição de bens.
Por exemplo, é neste contexto de crescente conectividade que o porto integra, desde outubro, a nova rotação do Dolphin Express Service, um serviço intraeuropeu operado pela Tailwind, companhia de navegação do grupo Lidl.
Mas o futuro do Porto de Setúbal constrói-se também através da modernização e da aposta na sustentabilidade. No âmbito da Estratégia Nacional “Portos 5+”, que orienta o desenvolvimento do sistema portuário até 2035, estão em curso projetos como o Rail2Green, que visa eletrificar o acesso ferroviário ao porto e reforçar a ligação intermodal, e o Onshore Power Supply (OPS), que permitirá aos navios ligar-se à rede elétrica durante a estadia, reduzindo emissões e ruído.
Entre os investimentos mais prioritários identificados no âmbito do Portos 5+, destacam-se projetos estruturantes que somam mais de 540 milhões de euros até 2035, entre investimentos públicos e privados. O novo terminal Ro-Ro, com investimento previsto de 60 milhões de euros, aumentará a capacidade de movimentação de veículos para 700 mil unidades/ano, reforçando a especialização de Setúbal neste segmento. Também a nova concessão para o Terminal Multiusos da Mitrena, com um investimento de 80 milhões de euros, potenciará a movimentação de granéis e carga geral, assegurando maior flexibilidade logística. Já a modernização do estaleiro da Lisnave, na Península da Mitrena, representa um investimento de 300 milhões de euros e visa criar um polo de excelência na reparação e construção naval sustentável e militar, incluindo o retrofit de navios para novos combustíveis sustentáveis e de cruzeiros, assim como a exploração de eólicas offshore. Juntam-se a estes projetos a modernização dos terminais multiusos TMS1 e TMS2, que visa reforçar as condições operacionais e de segurança, permitindo otimizar fluxos logísticos e garantir maior eficiência nas operações de carga e descarga.
A complementaridade com o Porto de Lisboa é outro fator decisivo para o crescimento. Juntos, os dois portos garantem a cobertura do hinterland do sul de Portugal e da Extremadura espanhola, representando atualmente 18,2 milhões de toneladas de mercadorias movimentadas e prevendo atingir 25 milhões até 2035. Setúbal ambiciona duplicar a sua capacidade, alcançando 10 milhões de toneladas de carga e 700 mil veículos movimentados por ano.
O porto tem igualmente reforçado a sua ligação à comunidade e ao ambiente. Inserido num cenário natural de elevado valor ecológico, junto ao Parque Natural da Arrábida e ao Estuário do Sado, adota medidas ambientais exemplares: 86% dos resíduos portuários e de navios são valorizados, e quase metade da frota automóvel da APSS é elétrica ou híbrida. No plano social, a APSS tem apoiado projetos educativos e de formação profissional, como a Port Academy, e colaborado com instituições locais em iniciativas culturais e ambientais, reforçando a ligação entre o porto e a cidade.
O Porto de Setúbal é, hoje, um porto preparado para o futuro. Um porto que alia tradição e modernidade, indústria e natureza, eficiência e responsabilidade. Um porto que representa o melhor da economia azul portuguesa — aberta ao mundo, competitiva, verde e comprometida com as pessoas.

