Quarta-feira, 17 Junho 2026
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Paulo Maia: “Trabalhámos para que a praia abrisse nestas condições. Queremos que não sejam as do ano que vem”

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Paulo Maia é vereador na Câmara Municipal de Setúbal, eleito pelo movimento independe Setúbal de Volta. Em entrevista ao Revela Arrábida, sendo esta a segunda parte de três, falou acerca do posicionamento do executivo face à travessia, e aos preços praticados, de Setúbal/Tróia.

No decorrer da conversa, o edil — com competências no Serviço Municipal de Segurança, Proteção Civil e Bombeiros, Departamento Financeiro e Recursos Tecnológicos e Departamento de Gestão de Pessoas e Competências —, esclareceu acerca do modelo implementado, em 2026, do programa Arrábida Sem Carros.

O autarca detalhou ainda pormenores acerca do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido e o que falta resolver para melhorar os acessos depois das intempéries que assolaram o concelho.

Sobre a concessão da Atlantic Ferries, na travessia Setúbal/Tróia. Já reuniram com a APSS? Já têm uma posição tomada? Planeiam fazer alguma reunião com as entidades responsáveis para apresentar um novo modelo de travessia do Sado?
Bom, vamos começar pelo princípio. Quando o movimento de cidadãos Setúbal de Volta era candidato, nós fizemos esse trabalho. Reunimos com a Atlantic Ferries, falamos sobre a travessia do Sado, que é para nós um tema muito acarinhado e muito sensível. Temos uma preocupação muito latente com isso. Em campanha, reunimos, então, com a Atlantic Ferries, que já não é, hoje, a entidade que explora a travessia, porque foi vendida entretanto. A Atlantic Ferries é a mesma, mas a sua estrutura societária é diferente. Portanto, já não é a Sonae.

Mas mudou depois de terem reunido?
Depois de termos reunido, em campanha, mudou. Portanto, hoje os donos do Troia Resort, que era, também, da Sonae, são os mesmos donos da Atlantic Ferries. Enfim, mudou tudo, a venda foi em pacote. Mas já em executivo, manifestámos uma grande preocupação nessa travessia, daí que já tínhamos reunido com a APSS e já reunimos com o Sr. Ministro das Infraestruturas sobre este assunto. Já lhes demos nota da nossa posição e da forma como tem que ser olhado o transporte. Estamos a falar em transporte, mas basicamente a pergunta que me quer fazer é o preço.

Pode haver alternativa [de travessia].
Para agora, não será fácil. Portanto, o que estamos aqui a falar, basicamente, é do preço. Porque este modelo existe há muito tempo, o dos ferries e dos catamarãs. Antes eram os cacilheiros e os hovercraft. Portanto, é um modelo que já existe há muito tempo. Não é um modelo novo. Por isso é que eu estava a dizer que, naturalmente, estamos a falar é do preço.

Uma viagem de ida e volta custa 9,30€. 
É um preço exorbitante. Muito elevado. Com certeza, absoluta, que nós não temos intervenção direta na forma de fazer este preço, mas temos a intervenção indireta e moral de dizer que é um preço muito elevado. A Câmara Municipal de Setúbal pede, ou quase que exige, que seja uma revisão feita de acordo com os padrões da distância que está em curso. É uma cidade ligada a uma praia que sempre foi nossa, de Setúbal. Troia pertence ao Município de Grândola, mas se perguntar ao país inteiro de quem é a Troia, digamos assim, toda a gente implica e afeta à cidade de Setúbal. É a praia das nossas memórias, das nossas gerações. E, portanto, nós entendemos que esse preço tem que refletir isto. Tem [o custo] que refletir a história e a distância. E tem que refletir esta simbiose entre as duas margens. A concessão deve ter em linha de conta o preço, além do modelo e das outras características. A nossa posição é que esse preço tem que ser real. Tem que ser de acordo com as possibilidades, de acordo com as características e de acordo com a própria história entre as duas margens.

E quais é que foram as conclusões dessas reuniões?
As conclusões são sempre simpáticas. “Sim, sim, sim, vamos ver e vamos estudar”. São sempre simpáticas. A nossa preocupação não é pela conclusão das reuniões, é pela conclusão da concessão. Essa é que é a preocupação. Quando essa concessão for feita, como é que vai ficar? Os alertas estão dados. Os alertas estão lá. Estão na APSS, estão no Ministério, estão na empresa. Agora, nós não fomos chamados… e se formos, teremos todo o gosto para lá ir, também, mas não fomos chamados à mesa das negociações. Mas se entenderem que devemos lá estar, a Câmara Municipal de Setúbal estará, com toda a vontade, a dar a sua posição.

No anterior executivo, juntamente com os municípios de Grândola e Alcácer do Sal, surge a hipótese de introduzir a travessia no Passe Navegante. Não acompanham essa ideia?
Não somos só nós que não acompanhamos essa ideia. O Governo não acompanha essa ideia. O Passo Navegante não somos só nós a dizer. Portanto, o Governo não acompanha essa ideia. E eu acho que teria que se olhar bem para a questão do Passe Navegante, que é para uma condição essencial do transporte de toda esta população que reside nesta área metropolitana enorme, para os seus casos de trabalho, os seus casos de estudo, para retirar muitos veículos nos transportes de um lado para o outro e foi isso que nos disseram.

O quê, exatamente?
Digamos, a génese do Passe Navegante não estaria a comportar a passagem para a Tróia. A posição é: se fosse incluído, não é por nós que deixaria de estar, logicamente. Agora, percebemos, e temos essa vontade, mas não temos a capacidade.

Agora, Arrábida sem Carros 2026. O modelo tem sido largamente contestado. A câmara municipal diz que as decisões são em prol da segurança da população, mas como é que será feita toda a gestão? Dada a afluência enorme de pessoas às praias da Arrábida. Só existe uma via e há condicionamentos ao uso de veículo próprio. Não existe receio das medidas tomadas não serem suficientes?
Muito bem. Essa é a segunda “pergunta para queijinho”. Mas é um assunto que me é muito querido, a mim, particularmente, porque também tenho o pelouro da proteção civil. Ponto 1: nunca por nunca ser, a Câmara Municipal de Setúbal, vai permitir pôr em causa a segurança dos seus munícipes.

Esse foi o ponto fundamental para esta decisão?
Vou repetir, Filipa, se me permitir. Nunca por nunca ser, a Câmara Municipal de Setúbal, vai permitir ser posta em causa a segurança dos nossos munícipes. Posto isto, na reunião de câmara, que já tivemos uma primeira e uma segunda a falar neste assunto, onde foi, primeiro, votada a época balnear, agora, voltou a ser falado nesta reunião de câmara [2 de junho]. Houve tendência para alguns vereadores da oposição compararem os anos anteriores com este ano. Não podemos comparar o incomparável. O incomparável não pode ser comparado.

Porque é que diz que é incomparável?
A praia é a mesma, mas os acessos não. Dentro do espaço que mediou o ano 2025 para o ano 2026, ocorreram oito tempestades. Oito, eu repito. Oito tempestades e ocorreram quatro tremores de terra.

Acha que as pessoas têm essa consciência?
Se não têm, têm que passar a ter, porque essa é a consciência que a proteção civil tem que dizer. As pessoas às vezes esquecem-se. Quando as coisas estão a ocorrer, as pessoas lembram-se. Mas quando não estão a ocorrer, as pessoas não se lembram. Daí que eu tinha feito uma manifestação de interesse antes de começar este tema. Porque não iremos pôr, nunca, em causa a segurança dos nossos munícipes. As arribas da estrada que vai de Setúbal até à Figueirinha ficaram instáveis. Como se recordam, a Estrada Nacional 10-4, entre Setúbal e Gávea, esteve encerrada ao trânsito, tal e qual como a estrada que hoje se chama Rua Orlando Curto e Rua Sírio da Arrábida, estiveram encerradas ao trânsito. Não encerramos porque apeteceu. Encerramos porque as intempéries, as tempestades, criaram problemas que elas não puderam abrir. Primeira parte: as pessoas, e um senhor vereador da oposição da CDU fez-me esta pergunta, de como é que seria o acesso às praias. Então, eu disse-lhe, nessa altura em que estavam as duas [estradas] fechadas: “eu pensava que o senhor me ia fazer a pergunta como é que é o acesso ao Hospital do Outão”. Porque esse era o meu problema enquanto vereador com a proteção civil. Eu tinha um hospital que só tinha um acesso pela estrada da Serra da Arrábida, na Estrada da Rasca, não é? E tinha um hospital em risco de ficar isolado. Eu tinha já falado com o capitão do Porto de Setúbal, pessoa que eu muito prezo e que nos deu uma ajuda desde a primeira hora, a dizer, meu caro amigo, senhor capitão do Porto de Setúbal, eu posso vir a precisar dos seus préstimos se tiver que evacuar alguém do Outão. Teria que o fazer pelo mar. E tudo isto estava falado. Portanto, quando me vêm perguntar das praias, e eu adoro praia e gosto de ver essas praias, temos que ver as coisas no seu tempo.

A primeira preocupação foi abrir a Estrada Nacional 10-4, entre Setúbal e Gávea?
Foi a nossa primeira preocupação. Que ainda está, e quem passa na Albarquel vê, uma componente muito vincada de uma queda para o Parque Urbano da Albarquel. E foi aberta a 31 de março, de acordo com aquilo que a câmara se comprometeu. Nessa altura, então sim, tínhamos o hospital já com duas vias, a situação estava mais calma. Preocupação seguinte: praias. Claro que sim. Então, aí, o nosso trabalho foi no sentido de, primeiro, abrir a estrada. Segundo, de ver a época balnear. Fizemos, em tempo recorde, e aqui tenho que o dizer, agradecendo aos trabalhadores da Câmara Municipal de Setúbal, nomeadamente da área das obras municipais, da proteção civil, do ambiente, foram inexcedíveis. E a empresa que também colaborou conosco, no caso da Nacional 10, as infraestruturas, no caso do Orlando Curto e Sírio e da Arrábida, a empresa que foi fazer o estudo daquelas arribas e daquelas pedras, que estavam em risco de queda para a estrada. E que, depois de muito conjugarmos esse estudo, entendeu-se possível ter a estrada capacitada para circular a 31 de maio. Ora bem, avançamos para aí, eu tive este compromisso em reunião de câmara, quando questionado sobre esse assunto, e ontem [2 de junho] disse que cumprimos o nosso desiderato de abrir a 31 de maio. A época balnear começou a 4 de junho e nós temos a estrada circulável. Infelizmente, só está circulável numa via. A outra via tem que ser protegida porque ainda há a possibilidade de haver queda de pedra. Para que os munícipes de Setúbal saibam, também, que foram retiradas mais de 260 toneladas de pedra.

Em quanto tempo é que isso aconteceu?
Foi em três semanas, desde o momento em que adjudicámos o trabalho, até ao dia 31 de maio. Aí, tivemos que fazer também um esforço grande, tivemos que pedir ajuda à GNR, que também foi inexcedível, no sentido de bloquear a estrada para que as máquinas trabalhassem, a todo o tempo, e sem interrupção de passagem.

E qual é que foi o custo desta obra?
Essa obra custou-nos, a nós, 35 mil euros. Foi uma obra que nós adjudicámos, logo. Foi ajuste direto. Foi uma obra que, face à urgência de que aqui estamos a falar, foi o que aconteceu. Essa obra tem uma segunda fase. Esta é a primeira fase, que foi retirar toda a pedra, aliviar as redes, para retirar toda a pedra. Só uma pedra que de lá saiu, tinha mais de 10 toneladas. Ora, imaginem uma pedra daquelas a vir até cá embaixo. A segurança dos munícipes, a segurança dos cidadãos do nosso concelho não será nunca posta em causa. Vai ficar só com uma via e foi entendido que o acesso às praias, em segurança, só pode ser feito desta maneira. Mas convém dizer isto: mediante o número de carros particulares que visitaram a serra ,o ano passado para as praias, mediante a medida deste ano e com o número de autocarros e o horário quase ininterrupto, de 10 em 10 minutos, nas praias, vai permitir a retirar da Arrábida cerca de mil carros.

Diários?
Sim. São praias fantásticas, que eu acho que, quem as visita uma vez, fica apaixonado. Quem consegue olhar para aquela serra e para aquelas praias, desde Albarquel até Alpertuche, temos uma benção de Deus. E, portanto, todo este programa foi pensado. É o ideal? Pergunta-me. Não, não é. É o possível e em segurança? É o possível e em segurança.

No que toca ao transporte das pessoas, como é feito apenas numa via, como é que é possível garantir autocarros, por exemplo, de 10 em 10 minutos?
Com bolsas de cruzamento. Como é normal, em vias que são algo extensas, numa via só, tem que haver algumas bolsas de cruzamento. Uma bolsa onde possa uma das viaturas encostar para a outra poder passar. Será uma situação conjugada. Eu acho que é uma experiência, também, para nós. Porque fomos obrigados a ela. O ideal não era isto. Se queríamos isto? Não queríamos. O que nós queríamos é que as pessoas tivessem acesso livre à sua praia, aos seus espaços. Mas se as pessoas tiverem um acidente, ou um incidente com uma queda de uma pedra, a responsabilidade não é das pessoas. É da Câmara Municipal de Setúbal, em primeiro lugar, na pessoa da senhora presidente da câmara, e depois, nos vereadores, e em toda a gente que não fez o seu papel e o seu trabalho. Portanto, temos que olhar para isto desta maneira. É o que eu peço aos cidadãos do nosso concelho. Que olhem numa perspectiva de que nós estamos a trabalhar e trabalhámos para que a praia abrisse nestas condições, que queremos que não sejam as condições do ano que vem.

Qual é a segunda parte das obras, que falou há pouco?
A sustentabilidade nova das redes. Tiveram que ser alargadas para se poder extrair a pedra. E, portanto, vamos ter que fazer, no final do verão, um novo trabalho para a extensão dessas redes. E queremos, se o tempo nos ajudar, que não hajam estas intempéries, que para o ano tenham um circuito de forma diferente. É uma vontade.

Queria perguntar, e se calhar entra na futurologia, ou na previsão — dir-me-á o vereador — que é: se a meio do verão constatar que não está a ser comportável este modelo que implementaram, principalmente com os autocarros, têm alguma medida pensada? Algum, digamos, plano de intervenção imediato?
Não. Porque, se tivéssemos, punha-nos já em prática.

Pode não corresponder.
Nós acreditamos que vai funcionar. Se não funcionar, teremos que pensar em soluções alternativas. Pensar nelas agora, não seriam alternativas. Portanto, se houvesse uma solução melhor que esta, implementaríamos de imediato. Não queremos que haja uma solução melhor do que esta. Ninguém nos conseguiu dizer que há uma solução melhor do que esta.

A via marítima, também…  
Ontem [2 de junho] a senhora vereadora e vice-presidente da câmara, Maria do Carmo Tiago, disse que tentamos contactar algumas empresas e que não estavam disponíveis. Está filmado, está em streaming, quem quiser pode ver. E aqui [na entrevista], também, peço ainda: se houver alguém, se existe alguma empresa, e, atenção, também não vamos fazer uma concessão como Troia, não é? Mas se houver alguma empresa que faça o transporte de pessoas para a Figueirinha, nós estamos perfeitamente disponíveis para falar com a empresa. Desde já. A vereador Maria do Carmo disse isso ontem [2 de junho], eu digo isso hoje, a senhora presidente diz isso todos os dias, o senhor vereador Bruno Russo diz igualmente. Todos nós dizemos a mesma coisa. A senhora vice-presidente deu nota disso e ninguém naquela reunião de câmara deu alguma informação possível. Até este momento, que estamos a falar, [3 de junho] não nos chegou nenhuma informação nesse sentido. Agora, ninguém nos mostrou que era possível outra solução. Mesmo os técnicos. E eu volto a frisar: segurança. Não queiram crer que há, aqui, outro tipo de motivo qualquer que não seja a segurança das pessoas. Disso não abdicamos.

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