José Carlos Sousa foi presidente da Assembleia Municipal de Palmela, no mandato de 2021-2025 — função que junta ao vasto currículo de atividade política, mas não só, que tem vindo a desenvolver pelo concelho ao longo dos anos. Atualmente, é vereador da Câmara Municipal, eleito pelo Partido Socialista.
Em entrevista ao Revela Arrábida, o autarca fala acerca do porquê de querer ser político, além das considerações dos resultados das últimas eleições autárquicas, realizadas a 12 de outubro. Abordou ainda o entendimento existente entre as duas forças políticas — PS e CDU — e quais são as linhas basilares para os próximos quatro anos de governação.
Porque é que escolheu entrar no mundo da política? E qual é o papel que tem na sua vida?
Há um aspeto fundamental em tudo o que fazemos: temos de ter gozo em fazer. Partimos desse pressuposto. Essa pergunta dava para estar aqui meia hora. Antes de entrar na política, que entrei, acho que nas primeiras eleições de 1989, quando fui número três à Junta de Freguesia de Pinhal Novo, pelo Partido Socialista, ainda como independente, sendo que até hoje continuo como independente. Aquilo que me motivava era o trabalho que já fazia na comunidade.
Como por exemplo?
Já era da Direção do Centro de Ocupação Infantil, já fui presidente de rádio alguns anos, trabalhava no jornal linha do Sul, com o Aníbal de Sousa. A política foi como um acrescento àquilo que eu já fazia. Estive 16 anos na Assembleia de Freguesia em Pinhal Novo. Depois fui vereador durante oito anos, em Palmela, entre 2005 e 2013, sem pelouros. Nessa altura tinha uma outra perspetiva de trabalho.
Que era qual?
Sou professor de Educação Física, de origem, com doutoramento em Ciências da Educação. Portanto, este é o meu perfil. E, nessa altura, era coordenador de equipa de apoio às escolas em Setúbal, e tinha cinco concelhos: Palmela era um deles, além de Sesimbra, Setúbal, Montijo, Alcochete. Depois de 2013, passo para a Assembleia Municipal, onde estive três mandatos, o último dos quais como Presidente da Assembleia.
Portanto, nunca viveu da política.
Nunca vivi da política. Diz-me assim: “Mas quais são as suas motivações?”, se calhar as mesmas que tinha há muitos anos. Acho que posso contribuir. Acho que posso fazer melhor e acho que muitas das coisas que temos hoje no nosso concelho poderiam estar de outra forma se houvesse um olhar diferente sobre as mesmas e essa outra forma beneficiaria, claramente, todos aqueles que cá habitam.
Foi sempre, segundo diz, em prol das pessoas e da comunidade.
Como disse, foi um acrescento, um pouco, àquilo que eu sempre fiz. Ainda hoje continuou a ser presidente do Conselho de Curadores do COI, até há pouco tempo era presidente do Conselho Fiscal de rádio. Portanto, é um bocadinho trabalho comunitário, por assim dizer.
Este ano, continuou com desafios.
Tive um desafio diferente. Estive sete anos como diretor de Serviços de Projetos Educativos, na Direção Geral da Educação, por concurso, de CReSAP. E, enfim, estava numa posição confortável, diria assim, sendo que não sou também pessoa para estar muito tempo nos mesmos sítios. Nunca fui. Gosto de desafios e de coisas que deem pica, como costumo dizer. E acabei por ser “puxado” para estas eleições em função de uma sondagem feita pelo Partido Socialista nos 140 concelhos onde os candidatos à câmara não se podiam recandidatar. E em Palmela isso também aconteceu. O meu nome, que não sei como é que foi para lá, apareceu muito destacado das outras dois pessoas, que estavam como possíveis candidatas. Foi um trabalho feito nestes últimos meses em que eu acabei por prescindir da Comissão de Serviço na Direção Geral de Educação e voltar à minha escola, que é José Maria dos Santos, no Pinhal novo, onde estou desde junho e onde ainda a semana passada estava lá, a dar aulas. Este é o percurso. Acho que temos de nos adaptar àquilo que fazemos e temos de ter um gozo fértil, bom. É isso que procuro.
Qual é a análise global que faz do resultado das autárquicas? Face àquilo que que as pessoas escolheram para o concelho de Palmela.
Pois, as pessoas escolheram para o concelho de Palmela, em função da votação que existiu, uma continuidade da força política vigente desde sempre no concelho. E, portanto, aquele voto de protesto acaba por não ser vincado e acaba por não vir para o Partido Socialista, que tem 2000 e qualquer coisa votos do que teve há quatro anos. E com esta votação, teríamos ganho nessa altura. Mas de votação para votação, as coisas mudam todas e, depois, há um fenómeno nacional que se chama Chega, que é uma marca forte, ao contrário da marca PS, que, neste momento, não é uma marca forte. Tudo foi conducente a que o resultado fosse negativo.
Foi negativo porquê?
Porque não se ganhou, porque somos a terceira força, porque só temos dois vereadores, e porque não conseguimos, como gostaríamos, de transformar o concelho à imagem daquilo que são as nossas perspetivas, daquilo que é que é o nosso ver, olhar, e de acordo com aquilo que nós idealizamos e colocámos o programa eleitoral. O resultado foi fraco para aquilo que nós trabalhámos, por um lado, e para aquilo que nós pensávamos que eventualmente conseguiríamos.
Além desse fenómeno do Chega, como disse, podemos dizer que alguma coisa falhou da parte da mensagem que queria passar?
Como já lhe disse, a marca PS não é uma marca boa neste momento. Aliás, a marca é boa, não está é bem cotada, vamos dizer assim. Isto é fruto, claramente, daquilo que é o âmbito nacional, mas objetivamente, e quando olhamos para trás, eu entendo que a campanha teve vários erros, que houve algumas falhas, e que, aqueles 600 votos que nos separam, podiam ter sido compensados de outra forma. Não o foram, não vale a pena neste momento preocuparmo-nos com isso porque já não podemos mudar nada.
E há alguma coisa que quer mudar agora?
Gostava de mudar em função de toda esta perspetiva que temos de um mandato em que o PS será o suporte da governabilidade, sem que haja nenhum acordo escrito.
Então, o que é que houve?
Houve um convite, da CDU, para que os vereadores do Partido Socialista pudessem ter pelouros e pudessem ajudar a construir o concelho um bocadinho à sua maneira, porque digamos que o PS é com quem a CDU mais se identifica.
A presidência da Assembleia Municipal também estava incluída nessa conversa?
Sim, foi um pacote global. Não foi a primeira vez que isso aconteceu, como sabe, portanto, eu há quatro anos também fui eleito presidente, da Assembleia, tendo feito uma associação com o PSD e o MCCP. Não é a primeira vez que isso acontece e acho que é benéfico que assim seja aqui. Em termos do executivo, somos nove, e quatro temos pelouros, além da presidente. Não tenho os que gostava, vou dizer assim, mas farei, com certeza, o meu melhor para que tudo possa ser proporcionado a todos aqueles que usufruem do trabalho que nós acabamos por desenvolver aqui.
Quais é que são os pelouros que gostava de ter?
Quem conhece o meu currículo, sabe que eu tenho muito pouco a ver com estas áreas. Eu tenho a ver com a Educação, tenho a ver com a Cultura, com a Juventude, com o Desporto, os Recursos Humanos. Fui diretor executivo da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens durante ano e meio. Essas são matérias que, para mim, seriam muito mais acessíveis, diria até mais aprazíveis, e que, em função das conversas que foram existindo com a presidente, foram linhas vermelhas que foram claramente traçadas. Em função disso, só havia uma opção, entre sim ou não. A partir do momento em que a Comissão Política do Partido Socialista entende que deve de ser sim, então, muito bem, vamos à luta, vamos experimentar, vamos ver o que dá, e vamos ver o que conseguimos, efetivamente, transformar para diferente, para melhor e sempre numa perspetiva de que vamos tentar negociar muito daquilo que é o nosso programa eleitoral também.
Já ouvimos de outras forças políticas que o PS vai ser uma muleta para a CDU. Considera o mesmo?
Sim, considero. A palavra “muleta” pode ter muitas conotações. Normalmente, neste contexto, é negativo. Mas vou fazer a imagem de que há muletas que têm um único pendão, onde nos apoiamos, e há outras que são tripé. Acho que nós não somos muleta tripé. Acho que somos uma muleta, de muleta. E qual é o grande desafio aqui… é que as pessoas percebam o que é que o PS faz no Município, que não seja fruto de ser muleta, e isto é um trabalho muito complicado e difícil. Porque lá fora, aquilo que passa, objetivamente, é que o é um “Governo da CDU”. Agora, o que é que tínhamos? Quem queria ir para eleições? É que se não houver governabilidade, há eleições.
Foi, então, numa perspetiva de governabilidade.
Claramente. Era uma questão de bom senso. De tentar, por um lado, respeitar os resultados eleitorais, e, por outro, dar a mão, com muleta ou sem muleta, para que a governabilidade seja possível. Depois pergunta: “Isto é para quatro anos?” e eu não sei se é para quatro anos. O PS saberá isso, com certeza. Eu tenho uma ideia muito clara sobre aquilo que têm de ser as linhas orientadoras dos pelouros que tenho neste momento, no sentido de dar resposta a quem está do outro lado. Conseguindo-o, muito bem, não o conseguindo, teremos de reequacionar as questões. Mas para ficar muito claro, não há nenhum acordo escrito. Não há, sequer, nenhum acordo que diga que as votações são desta, daquela ou daquela maneira.
Se tiverem de votar contra, votam?
Sim. Não tenho dúvidas sobre isso. Agora, perceba, documentos estruturantes como orçamento, como a prestação de contas, como o PDM, como a estrutura orgânica nova, que vamos tentar construir. A presidente de câmara, quando falou comigo sobre a estrutura orgânica, disse “o Zé Carlos falou muitas vezes da estrutura orgânica na campanha” e esta estrutura orgânica que está aqui é ineficaz e prova-se, hoje, que é ineficaz. Precisamos de uma estrutura orgânica nova, que tem de ser feita a dois, e só nessa perspetiva é que nós teremos condição para votar a favor. Aquilo que nos pedem, neste momento, não é que nos abstenhamos nas votações. É que votamos a favor.
Quer isso dizer que o Partido Socialista vai ver todas propostas, e ter uma palavra a dizer, antes de irem a reunião de câmara?
E vai transformá-las para poder votar favoravelmente, ou não.
Tentarão que a abstenção seja a última hipótese?
A abstenção, aqui, para nós, não, não valerá nada. Não vale para a governabilidade, certo? Portanto, a governabilidade exige um voto favorável do PS. O grande desafio é que as pessoas, os 74 000 lá de fora, percebam como é que existe esta capacidade: dar a governabilidade à CDU não nos impede de ser oposição.
Podemos dizer que vai haver uma governação conjunta, de certa forma?
Não há uma coligação. Haverá uma coordenação e uma governação, não sei se lhe chamaria conjunta, mas que tem de ser muito partilhada, tem. São os quatro vereadores, os pelouros, onde, muitos deles, tocam-se. Tenho aqui uma série de coisas, que presto serviços, para dentro do Município, como os transportes — quer os escolares, quer depois os outros todos —, as questões das obras, das reparações, as questões ligadas a toda a logística. É deste departamento, com as três divisões que tem, que sai tudo. Até as próprias questões da saúde, que têm muito a ver com os edifícios etc. Não consigo fazer sozinho. Tenho de fazer, claramente, com os outros vereadores, no sentido termos um plano, e esse plano, tem de ser um plano, que seja traçado por nós, de uma forma clara, diria assim, e que seja aceite por ambos.
Aqui teremos o Partido Socialista com ideologias diferentes da CDU. E, em certos pontos, pode existir um entendimento de pontos entre a cedência da CDU pelo PS, ou ao contrário.
Perfeitamente. Há questões que são basilares. Nós temos uma frota automóvel, falando dos meus pelouros, completamente desadequada, desadaptada, velha. Temos de a adequar e a curto prazo. Quando pergunta: “É só senhor que pensa isso eu?” eu acho que a presidente também pensa. Tentarei que isso seja uma das prioridades para a curto prazo. Temos uns armazéns gerais, onde ainda hoje manhã estivemos, que que são desadequados, impróprios, feios, não pintados, com uma imagem exterior péssima e as pessoas trabalham ali. Temos de melhorar isso também. Há aqui vários aspetos, nesta parte que agora me diz mais respeito e que eu tenho estudado ultimamente, que me parece que vamos conseguir fazer e vamos conseguir transformar. Se calhar não a tão curto prazo, como gostaria, mas num prazo que seja plausível para todos.
E a longo prazo, quais é que são as propostas que não querem deixar cair e que querem que sejam realizadas no concelho de Palmela?
As questões das variantes são fundamentais, ponto primeiro. Por outro lado, continuo, embora já tenha ouvido muita coisa para a frente e para trás, a pensar nas questões ligadas a um edifício de serviços para o Município. Ainda por cima eu também tenho a questão ligada aos edifícios, mas não são só os edifícios da câmara. São também aos edifícios que são alugados, e temos de fazer manutenção, como temos de fazer manutenção noutros equipamentos que não estão nas juntas de freguesia. A questão da saúde mental, pegando, agora nas questões da saúde, parece-me muito relevante e o Município tem também de se preocupar com isso. E depois, em termos da estrutura base, penso, cada vez mais, que teremos de ir para um processo de, não diria da implementação de inteligência artificial, mas que permita, por exemplo, que, no urbanismo, os requerimentos não estejam lá perdidos anos.
Essa é uma das grandes falhas que apontam.
É uma das grandes falhas que se aponta, foi um dos departamentos que ficou logo vetado e é, claramente, uma possibilidade que nós temos de melhorar e quando melhoramos, melhoramos a resposta às empresas, melhoramos a resposta aos serviços, melhoramos a resposta ao particular e isso fará toda a diferença para os munícipes. Eu acho que estes são três ou quatro eixos fundamentais para aquilo que nós queremos.
E na Cultura?
Penso que não podemos continuar a ter os mesmos “modelos” ao fim de 20 anos de diferentes efemérides. Precisamos de olhar para as coisas de maneira diferente e precisamos de cativar pessoas para estarem presentes, e não fazer as coisas para um nicho que seja tão curto que às vezes não conseguimos perceber onde é que acaba a organização e onde é que começa o público.
Qual é que vai ser o papel do PS ao longo destes quatro anos que aí estão por vir?
Vai ser um papel de trabalho naquilo que foram os pelouros que a presidente nos atribuiu e vai ser um papel de exigência para que os orçamentos, a serem aprovados, tenham neles contemplados verbas necessárias e suficientes para se fazer aquilo que é relevante, no nosso entender, e que, esperemos, seja também no entender da maioria.
Visto que as propostas vão ser trabalhadas a dois, significa que o PS vai deixar de levar propostas à câmara ou vai continuar a apresentar propostas próprias?
Quanto à questão do trabalhar a dois… a presidente de câmara tem esta ideia, que já fez no outro dia, que foi fazer uma reunião prévia com todos os oito vereadores. Essa será uma estrutura que a presidente e que, aliás, quando eu fui vereador em 2005, também era a Ana Teresa Vicente a presidente, já fazíamos na altura, depois caiu em desuso, por vários fatores, e que eu, e em bom da verdade, concordei. Penso, agora, que o que vamos tentar fazer é organizar. Cada um dos departamentos vai levar as suas propostas, eu vou levar as minhas, quando levar, vou mostrar nessa tal reunião, e vamos tentar, de alguma maneira, conciliar questões e tentar perceber até que ponto conseguimos ou não estruturar os mecanismos necessários para o desenvolvimento do concelho, e tudo tem muito a ver com os orçamentos. Vamos jogar com muito daquilo que é o futuro daquele ano. No orçamento, e nas Grandes Opções do Plano, que, quando é definido, temos de ter clareza. Sempre com muita coerência e, de preferência, tentando, que aquilo que fazemos, possa chegar ao público, para que a questão da muleta não seja a mais relevante de todas.

