Gestor de Projetos Financiados PT 2030/ PRR
Todos os anos ouvimos a mesma expressão: “A política entrou de férias.” O Parlamento interrompe os trabalhos, as agendas institucionais abrandam e muitos responsáveis políticos aproveitam o mês de agosto para descansar. E fazem bem. Quem exerce funções públicas também tem direito ao descanso.
O verdadeiro problema não é agosto. O problema é que, para demasiados cidadãos, a sensação é de que a política passa grande parte do ano em pausa.
Basta olhar para a realidade de muitos concelhos do país. Promessas repetidas de mandato para mandato, projetos sucessivamente anunciados, inaugurações adiadas, obras que nunca chegam ao terreno e uma gritante incapacidade para pensar o futuro para além do próximo ciclo eleitoral. Vive-se demasiadas vezes da gestão do imediato, da resposta à urgência do momento e da lógica da comunicação política, esquecendo aquilo que verdadeiramente transforma um território: visão estratégica, planeamento, execução e capacidade de antecipação.
Governar não pode ser apenas reagir aos problemas quando estes já se instalaram. A verdadeira liderança consiste em antecipar desafios, preparar soluções e construir respostas antes de as crises se tornarem inevitáveis. A crise da habitação, o envelhecimento da população, a escassez de profissionais de saúde, as dificuldades na mobilidade, a pressão sobre os recursos hídricos ou a necessidade de adaptação às alterações climáticas eram problemas previsíveis há muitos anos. Em demasiados casos, a resposta surgiu apenas quando os custos económicos e sociais já eram muito superiores.
Desde a viragem do século, Portugal recebeu milhares de milhões de euros provenientes dos fundos europeus. Nunca o país dispôs de tantos instrumentos financeiros para modernizar infraestruturas, reforçar a competitividade, qualificar os serviços públicos e criar melhores condições para atrair investimento e fixar população.
É justo reconhecer que houve progressos importantes. Melhoraram infraestruturas, requalificaram-se escolas, construíram-se equipamentos públicos e muitas autarquias elevaram significativamente a qualidade de vida das suas populações.
Mas também é impossível ignorar aquilo que continua por fazer.
O problema nunca foi apenas a falta de financiamento. Em muitos casos faltaram capacidade de planeamento, qualidade na execução, coordenação entre instituições e visão estratégica para transformar investimento público em desenvolvimento sustentável e duradouro.
Persistem problemas estruturais que atravessam governos e autarquias de todas as cores políticas. A burocracia continua a atrasar decisões, o investimento público demora demasiado tempo a concretizar-se, a habitação tornou-se inacessível para muitos jovens, os serviços de saúde enfrentam dificuldades crescentes e os transportes públicos continuam insuficientes em grande parte do território. Ao mesmo tempo, o interior perde população, oportunidades e investimento, sem que exista uma estratégia nacional verdadeiramente consistente para inverter esta tendência.
Ao nível local, a realidade não é muito diferente.
Há municípios que vivem confortavelmente da rotina administrativa, limitando-se a gerir o dia a dia sem uma visão clara para as próximas décadas. Muitas decisões parecem depender exclusivamente do calendário eleitoral. À medida que se aproximam eleições multiplicam-se anúncios, apresentações públicas, primeiras pedras e promessas que permaneceram esquecidas durante anos.
Governar não pode resumir-se a inaugurar equipamentos, cortar fitas ou anunciar investimentos. Governar é definir prioridades, estabelecer objetivos concretos, medir resultados, prestar contas regularmente e ter coragem para tomar decisões difíceis, mesmo quando estas não são eleitoralmente populares.
Existe, porém, uma questão que raramente é discutida: a competência para governar.
Gerir um município, uma comunidade intermunicipal, uma empresa pública ou um ministério significa administrar orçamentos de dezenas ou centenas de milhões de euros, liderar centenas de trabalhadores, tomar decisões complexas e definir prioridades que condicionam a vida de milhares de pessoas. Estas responsabilidades exigem competências em gestão, planeamento estratégico, liderança, finanças públicas, contratação pública, gestão do risco, negociação, inovação e avaliação de políticas.
No setor privado seria impensável entregar a direção de uma organização desta dimensão a alguém sem preparação para essas funções. No entanto, na política continua muitas vezes a presumir-se que a legitimidade eleitoral, por si só, basta para garantir capacidade de gestão. Não basta.
Ser eleito confere legitimidade democrática. Não substitui conhecimento, experiência nem competência técnica.
As melhores organizações trabalham com objetivos claros, indicadores de desempenho, avaliação de resultados, gestão de risco, auditorias e processos de melhoria contínua. Em demasiadas instituições públicas continua a valorizar-se mais o cumprimento de procedimentos do que a obtenção de resultados concretos para os cidadãos.
Infelizmente, a cultura política portuguesa permanece demasiado refém do taticismo partidário e demasiado afastada da cultura de resultados. Os partidos com responsabilidades de governo, nacionais ou locais, sucedem-se na troca de acusações, atribuindo responsabilidades a quem governou antes e antecipando justificações para quem governará depois. Entretanto, os problemas permanecem e os cidadãos continuam à espera de soluções.
Falta também uma verdadeira cultura de avaliação das políticas públicas. Quantos programas são efetivamente avaliados? Quantos investimentos públicos são medidos pelo impacto económico e social que produziram? Quantos compromissos eleitorais são objeto de prestação de contas transparente perante os eleitores?
Sem avaliação não existe aprendizagem.
Sem aprendizagem repetem-se os mesmos erros.
Sem responsabilização enfraquece-se a confiança dos cidadãos nas instituições.
A democracia não se esgota no ato de votar de quatro em quatro anos. Exige participação cívica permanente, escrutínio, transparência e uma cultura de exigência que avalie os resultados de quem governa, independentemente da sua filiação partidária.
É precisamente aqui que os partidos têm de fazer uma reflexão séria.
A renovação política não passa apenas por apresentar rostos novos. Passa por selecionar pessoas preparadas, valorizar o mérito, reforçar a competência técnica, abrir espaço à sociedade civil e construir projetos capazes de sobreviver para além de um mandato. Governar não é apenas conquistar eleições; é criar condições para que as gerações seguintes encontrem um país mais competitivo, mais justo e melhor preparado para enfrentar o futuro.
Portugal precisa de mais estratégia e menos improvisação.
Precisa de mais planeamento e menos reação.
Precisa de menos propaganda e mais prestação de contas.
Precisa de menos anúncios e mais execução.
Precisa de líderes que pensem para além da próxima campanha eleitoral.
Também ao nível municipal chegou o momento de abandonar a lógica da simples gestão corrente. Os desafios das próximas décadas — envelhecimento demográfico, alterações climáticas, mobilidade, habitação, transição digital, desenvolvimento económico e captação de investimento — exigem planeamento consistente, continuidade estratégica e capacidade de execução.
Os portugueses não esperam milagres.
Esperam competência.
Esperam que quem administra recursos públicos saiba planear, decidir, executar, avaliar e prestar contas.
Porque governar não é gerir o calendário eleitoral.
É preparar o futuro de uma geração inteira.
Agosto passará rapidamente, como todos os anos.
O importante é garantir que, quando setembro chegar, a política regresse ao trabalho com uma ambição diferente daquela a que demasiadas vezes assistimos.
O verdadeiro teste da política não acontece durante as campanhas eleitorais. Acontece todos os dias, quando é preciso tomar decisões, resolver problemas e produzir resultados.
Porque Portugal já perdeu demasiado tempo.
E porque os portugueses merecem uma política que trabalhe com visão, competência e sentido de missão durante os doze meses do ano.

