Sexta-feira, 16 Outubro 2026
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Flávio Barbosa, o chef que mistura gastronomia asiática e setubalense

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Flávio Alexandre Pereira Barbosa Lucas, natural do Barreiro e residente em Setúbal, começou a vida profissional no setor do marketing, mas depressa apercebeu-se que este não era o caminho que queria seguir para o resto da vida.

Entre refeições em família, onde preparava a famosa açorda de camarão, prato cobiçado por todos os que estavam à mesa, Flávio decidiu que o futuro tinha de estar ligado ao mundo da cozinha e da gastronomia.

A avó acreditou no sonho e fez questão em pagar-lhe o curso, na escola Everything About Sushi, do chefe Paulo Morais. A partir daí, Flávio nunca mais se separou da profissão e, hoje, com 39 anos, tem um espaço em Setúbal, onde mistura pratos asiáticos com ingredientes típicos da cidade.

Comece-me por contar, o que é que o fez ligar-se à cozinha?
Eu sempre estive ligado à parte do marketing e das vendas. Trabalhei muitos anos na Portugal Telecom. Na altura, eu estava numa empresa que era a PT Negócios, que era do grupo da Portugal Telecom e trabalhava com empresas. Mas sempre, sempre gostei muito da cozinha, sempre foi o meu hobby em casa. Cozinhava sempre para a família e para amigos.

Qual era o prato mais cobiçado pelos seus familiares quando eram organizados almoços?
Fazia açorda de camarão, gostavam mesmo muito quando eu fazia.

Começou por cozinhar em casa e foi aí que viu que existia algum talento para a cozinha?
Eu comecei a cozinhar em casa e depois eu, quando decidi entrar no mundo da cozinha, foi quando cheguei a um ponto da minha vida que pensei, “ou é agora que vou fazer o que eu quero ou não”. Estava a chegar ali na idade de decidir efetivamente o que é que eu queria fazer com o resto da minha vida, isto já foi com 21, 22 anos.

O que decidiu?
Falei com a minha avó na altura, ela apoiou-me e pagou-me o curso de cozinha, porque, na altura, eu tinha que ir uma escola e, neste caso, a escola era paga e ela é que me apoiou e pagou-me o curso de cozinha.

E onde é que tirou o curso?
O primeiro curso que eu tirei foi na escola Everything About Sushi, que era do chefe Paulo Morais. É uma escola que já não existe, que era, portanto, uma escola em que nós aprendíamos a base da cozinha japonesa, o sushi, entre outras cozinhas, mas a base era para aprender como é que se iniciava, como é que se fazia.

Foi lá que aprendeu tudo?
Ninguém saia dali formado, mas saia dali, sim, com as bases para poder entrar nesta área. Depois de já estar assente na área do sushi, andei a fazer sempre outras coisas também pelo meio. Depois fui aprender mais, fui tirar o curso de cozinha e pastelaria portuguesa na ACPP, em Lisboa.

E o que é que isso tem a ver com o sushi? Há alguma ligação?
É assim, tem a ver porque nós vamos aprender as técnicas da cozinha portuguesa, vamos aprender a base da nossa cozinha toda. Apesar de cozinharmos em casa, fazemos as coisas, muitas vezes falta-nos um conhecimento técnico do porquê das coisas. Eu fui aprender toda essa base da cozinha portuguesa, tudo o que estava por trás da nossa cozinha, para também poder, mais tarde, aplicá-la na minha cozinha do dia-a-dia, que era a cozinha asiática.

Então, o que o trouxe a Setúbal?
Eu estava numa cadeia de hotéis em Lisboa, quando decidi sair, e mudei-me, depois, para um restaurante em Setúbal, que fazia cozinha asiática. Vim para a cidade para ficar mais perto de casa, porque levava muito tempo a chegar. Queria estar mais perto da minha família.

O que se seguiu?
Havia uma cadeia de hotéis que ia abrir em Setúbal, que era os hotéis Cristal e estavam à procura de um chefe de cozinha. Eu candidatei-me a essa função de chefe de cozinha no hotel. Fui selecionado, saí de onde estava, e, no momento em que estava para entrar neste hotel, arrebentou a pandemia e ficou tudo parado.

Então não chegou a ficar com a posição?
Andei ali ao sabor do vento. O hotel abria, o hotel não abria, o hotel fechava, o hotel abria, o hotel fechava, até que fechou tudo. A partir daí é que fiquei mesmo sem trabalho. Isto foi durante o ano de 2020. Foi quando eu decidi que não ia trabalhar para mais ninguém e achei que estava na altura de ter um projeto meu. Falei com a minha mulher, disse-lhe o que é que estava a pensar e ela apoiou-me.

É aqui que surge a Casa Japonesa?
Sim, falei com o Rui, que é o meu sócio, e disse-lhe que estava a pensar ter um negócio próprio e que precisava de ajuda para fazer o plano de negócios, porque a área dele é a gestão de empresas. Ele ajudou-me, interessou-se pelo projeto e fizemos sociedade, também porque somos família e, portanto, também facilitou aqui bastante o processo. Juntámos-nos os dois e fizemos o projeto da Casa Japonesa.

Como foi o começo?
Na altura não havia banca, estávamos em pleno Covid, não havia apoios às empresas, portanto, criámos a empresa, juntámos o que tínhamos para conseguirmos abrir um espaço pequeno, só com takeaway, na altura, porque também não se podia ter um espaço de restaurante, ainda não estavam abertos.

O que planearam fazer neste espaço, em termos culinários?
Na altura pensámos em ter um projeto diferente, já havia muitos restaurantes que faziam sushi em Setúbal, mas nós queríamos um projeto diferente. Queríamos fazer cozinha asiática e ter o sushi também e foi isso que aconteceu.

Donde vieram as ideias para cozinha de fusão? Porquê agarrar em coisas de Setúbal para misturar com esta cozinha internacional?
Primeiro porque temos uma costa, como toda a gente sabe, espetacular a nível de peixe, portanto, aí conseguimos ir buscar o que está na nossa costa. Depois, olhamos para produtos que dificilmente os restaurantes vão buscar, nomeadamente a fataça, a tainha de mar. Também temos os salmonetes, temos aqui as vieiras e temos o peixe-rainha, que também é muito desperdiçado. Pegámos nestes produtos, que são aqui da nossa costa, e transportámos para esta cozinha, adaptámos, ou seja, com as técnicas japonesas. Normalmente, noutros espaços, é utilizado o robalo, a dourada, a corvina, o salmão e o atum. Nós queremos ter sempre coisas de peixes diferentes. 

De todas as criações, qual é a sua favorita?
Eu gosto muito dos camarões fritos com moscatel de Setúbal e kimchi. Eles são baseados no camarão ao alho, ou camarão à guilho, como muita gente também chama. Aqui, tem um toque diferente.

Porquê?
Porque eu não uso brandy, nem uso whisky. Neste prato eu incluí o moscatel de Setúbal e, sendo uma bebida que já é doce, com o salgado e os aromas todos do kimchi, que é um molho coreano, faz a combinação perfeita. O prato tem toda a base dos camarões fritos, que é o azeite, os coentros e o alho. Depois, juntamos estes dois ingredientes, que parecem ser improváveis, e faz um prato espetacular, um prato diferente e um dos mais icónicos da nossa carta.

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