Segunda-feira, 23 Março 2026
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António Cachaço: “Vamos votar o que acharmos e sentirmos que é melhor para Setúbal”

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Aceitou o desafio de se candidatar, pelo Chega, a presidente da Câmara Municipal de Setúbal quando, em princípio, seria apenas o número dois da lista. António Cachaço não quis deixar o partido na mão e rege-se, no seu papel como vereador da autarquia, com base no que considera “ser o melhor” para Setúbal.

Em entrevista ao Revela Arrábida, o terceiro rosto mais votado nas autárquicas de 2025 pelos eleitores do concelho – numa estreia do Chega nesta autarquia enquanto força política –, menciona quais os princípios que defende, o porquê de assumir determinadas posições e as ideias que tem sobre diferentes matérias que interferem, direta ou indiretamente, na vida da população.

Esta é a primeira atividade autárquica do Chega, com vereadores, na Câmara Municipal de Setúbal. Como é que tem sido a experiência nestes quatro meses?
Tivemos uma fase em que tivemos de aprender. Estamos a falar de pessoas que estão há muito tempo na política e, para nós, foi tudo novo. Tem sido interessante, temos estado a captar algumas informações a nível autárquico e, neste momento, temos capacidade e já temos a mais-valia de termos pessoas a trabalhar conosco, que nos ajudam de forma a estarmos mais preparados para todos os debates que existirem a nível autárquico e tem sido essa a nossa subida a nível de aprendizagem. Vamos continuar, garantidamente, e daqui a uns tempos vamos estar melhor, sendo que sabemos que aqui há uma câmara com muita especificidade, porque tem duas forças com os mesmos vereadores. Nós fazemos a linha de equilíbrio nas decisões e sabemos o poder que isso tem. Vamos fazer força para que esses dois votos que nós temos, e que são importantes, sejam levados em conta para melhorar a vida dos munícipes em Setúbal.

Vimos que fizeram uma reunião entre deputados municipais e vereadores do partido. Quais é que foram as conclusões desse momento e o que é que pretendem trazer para Setúbal? 
Deixo a nota que apesar da campanha que o PS tem feito por algumas pessoas e por alguns perfis falsos no Facebook, de tentar nos juntar ao movimento de Setúbal de Volta, não é verdade. Simplesmente, se forem olhar para os dois programas, percebem que têm muitas medidas em linha um com o outro, como por exemplo a polícia municipal ou a videovigilância. De resto, já fizemos uma recomendação para uma percentagem para que a habitação social e de custos controlados seja para profissões essenciais para Setúbal, para médicos, enfermeiros, polícias, GNR ou professores. Foi bem recebida pela parte do executivo. Vamos começar a trabalhar nessa proposta para 2027. Quarta-feira [18 de março] vamos apresentar uma moção que tem a ver com a videovigilância nas escolas. Achamos que é importante.

Porque é que acham importante?
Há poucos efetivos nas escolas. Há pouco pessoal e staff de apoio nas escolas. Achamos que é importante haver videovigilância nas escolas porque estão cada vez mais perigosas e é um ponto essencial para nós a segurança das crianças e dos próprios funcionários.

O diálogo com o executivo… é bom?
Sim, todas as forças políticas têm sido convidadas em vários momentos. Fomos convidados, por exemplo, quando foi para apresentação da constituição da polícia municipal. Fizeram questão de apresentar o projeto. Ou quando foi a mudança de logotipo. Todos os partidos têm sido convidados a estarem presentes nas decisões. Acho que é uma medida importante do executivo e acho que tem toda a lógica, até porque tendo um executivo minoritário, acho que tem de partilhar todas as decisões que são tomadas. Até hoje, não temos nada a apontar a nível de decisões assim, mais por baixo da mesa. Têm-nos comunicado tudo, como têm comunicado ao PS, ou como têm comunicado à CDU. Não temos tido razão de qualquer desconfiança.

Queria retornar um bocadinho mais atrás, até à altura em que foi eleito para a câmara, como vereador. Quando o desafio foi lançado, sabendo que não era cabeça-de-lista desde início, aceitou logo? Era algo que já estava previsto caso acontecesse algum contratempo? E tem correspondido às expectativas?
Sempre disse que a minha ideia era ser número dois, até pela minha vida profissional. Não era para ser cabeça-de-lista, até pela minha experiência. Aconteceu. Foi uma situação que surgiu e que, quando foi proposto, não ia deixar na mão o partido, nem os setubalenses. Tínhamos feito uma campanha muito efetiva na rua. Tínhamos tido uma mensagem muito positiva da parte dos munícipes e não ia dar um passo atrás nesse sentido de não avançar.

Mas hesitou?
Não foi hesitar. É uma câmara exigente e nós temos noção disso. É uma capital distrito, tem um orçamento grande. Tínhamos ideia do poder que iríamos ter, mesmo antes das eleições. Na rua tivemos um feedback muito positivo da parte das pessoas. Tínhamos a noção de que iríamos ter sempre dois, três vereadores. Sabíamos que iríamos ter um poder grande dentro da câmara e uma câmara que ia ficar muito dividida. Se formos a olhar para a Assembleia Municipal, a divisão ainda é maior. É o PS que está como força principal. Portanto, era aqui uma conjugação de forças, mas nunca pusemos em causa o projeto. Isso foi decidido e eu era militante do Chega. Foi pedido e continuamos. Graças a Deus que correu tudo bem e vamos continuar a lutar por Setúbal.

Quando pergunto se tem correspondido às expectativas é também porque se tem comentando – e até tendo em conta a voz que o partido tem a nível nacional – , que o Chega, aqui em Setúbal, remete-se muito ao silêncio nas reuniões. É um apontamento que tem sido feito. Porque é que isso acontece?
Isso acontece porque tem sido uma estratégia nossa. Não tivemos em decisões que eles tomaram e, se repararem, nas reuniões de câmara, é ali um desaguisado entre o PS e a Dores Meira, ou com a CDU e a Dores Meira. Nós não estávamos naquela decisão, não estávamos naquele momento. Achamos que não temos que estar metidos naquela batalha entre eles. É um problema deles. Eles é que se chateiam. A nossa função é, a partir do momento em que fomos eleitos, lutar por Setúbal. Quando for para tomarmos decisões, estamos cá para tomar a nossa decisão em consciência e com aquilo que prometemos na campanha. Eu sou de Setúbal, nasci em Setúbal, fui criado em Setúbal. Não quero que a minha cidade continue quatro anos parada como esteve. Todas as decisões que nós tomarmos, sejam qual for, vão ser sempre, com o intuito de melhorar o concelho. Quem aceitar, aceita. Tenho 51 anos e já aprendi que vamos ser sempre criticados. Somos para a esquerda, somos criticados… somos para a direita – e sempre para a direita, graças a Deus –, somos criticados. É aprender a viver com essa crítica que sabemos que vai acontecer sempre, tendo em conta que, mais para a frente, garantidamente, vamos ter uma voz mais ativa. Neste momento, as posições estão tomadas e as medidas mais importantes também. Foram votos feitos em consciência, que achamos que são necessários para desenvolver a cidade e voltar a metê-la no bom caminho.

Em novembro, nas primeiras reuniões, foram delegadas competências na presidente, aprovadas com voto favorável do Chega. Foi um dos pontos que motivou algumas insinuações em que poderia existir um entendimento entre o Chega e o movimento Setúbal de Volta. Nunca houve nenhuma conversa?
Tínhamos dois caminhos: ou deixávamos governar quem ganhou nas urnas, que é uma realidade, mas com a nossa fiscalização e controle, ou bloqueávamos a cidade toda por mais quatro anos.

Se tivesse reprovado, acha que era isso que acontecia?
Era, era. Porque foi uma estratégia utilizada pelo PS nos outros quatro anos e estavam com esperança de voltar a fazer.

Mas porque é que acha que bloqueava a cidade?
Porque o orçamento não ia passar, porque havia muitas coisas que iam ser bloqueadas. A nossa ideia foi deixar governar e nós fiscalizarmos. O nosso intuito foi de dar a liberdade dentro dos possíveis, para não bloquear a cidade. Mas vamos estar a fiscalizar e vamos estar a controlar tudo, porque essa vai ser a nossa função principal. Fiscalizar e dizer, na altura, se houver alguma falha, “veja lá porque apoiámos para governarem, mas estão a falhar neste sentido”. Essa foi sempre a nossa ideia desde o princípio.

Esta posição assumida pelo Chega em Setúbal vai colidir com o que aconteceu com a votação do partido, por exemplo, em Sesimbra, onde foi mencionada essa fiscalização, mas tirando algumas das competências delegadas no presidente Não é um pouco contraditório?
São realidades diferentes e conjugações de câmaras diferentes, a nível de forças partidárias. As decisões que tomámos foram sempre em conjunto. Votámos contra a CIM (Comunidade Intermunicipal) da Península de Setúbal, enquanto, em outras câmaras, votaram a favor. Temos uma linha de pensamento, mas cada câmara tem a sua especificidade e nós temos essa liberdade para tomar a decisão, sendo que temos sempre a linha do partido em conta.

Já que falou da CIM, não considera que o facto de uma não constituição podia prejudicar a comunidade, em comparação ao que vai beneficiar?
O nosso chumbo, e teve a ver com o que nós dissemos na declaração de voto que fizemos,  não tem a ver com a CIM em si, mas como é que a CIM foi criada e com o intuito que foi criada. Vamos vendo que, se calhar, temos um bocadinho de razão quando dizíamos que ia haver um bocadinho de tachos e muita gente, como os despedidos partidários, com colocações muito estranhas. O nosso voto contra foi nesse sentido. Não contra a CIM em si, mas sobre o que a CIM pode vir a trazer. Temos as nossas desconfianças.

Então um voto de protesto, digamos assim, vale mais do que esses benefícios que podem ser trazidos para a comunidade? 
Não precisávamos da CIM para ter esses benefícios.

Porquê é que diz que não precisávamos?
Porque há muitas formas de serem feitas as entregas e a disponibilização dos fundos. Achamos que a própria CIM, em si, pode ser importante, mas não é um fator primordial para o desenvolvimento da região porque vamos ter várias entradas por todas as linhas políticas que estão agregadas às CIM. Nós temos noção disso.

Mudando de tópico. O Chega votou contra o apoio financeiro, na reunião de 4 de março, a duas companhias de teatro setubalenses. O TAS – Teatro Animação de Setúbal e o Teatro Estúdio Fontenova. Ponderaram muito, muito bem, antes de tomar a decisão? 
Sim. E se for a votos, vamos continuar a chumbar. Porque nós não podemos aceitar que o dinheiro público seja utilizado com ideologias não tão claras. E não vale a pena vir o vereador do PS e da CDU…

Mas porque que é diz que se tratam de “ideologias não tão claras”?
Não não posso admitir que, numa escola, como aconteceu recentemente, não me recordo do concelho, se assista a uma peça que tenha a ver com a cultura woke. Não estamos de acordo com isso. A nossa linha é pátria, Portugal, os portugueses, a família. Não vemos qualquer lógica em estarmos a disponibilizar dinheiro para essa difusão de ideologias. Não vale a pena disfarçarem. E a maioria dos teatros tem gente ligada à esquerda e nós não estamos contra isso. Mas acho que, por exemplo, os 190 mil euros que são dados ali, podem resolver problemas em várias escolas. Para mim, é mais importante resolver problemas nas escolas do que no teatro. Se são profissionais do teatro, façam as peças, abram bilheteiras, trabalhem e são ressarcidos por isso. Não são funcionários públicos.

Mas sabe que isso já acontece… Angariam dinheiro com a venda dos bilhetes para os espetáculos.
Exato, mas, pelos vistos, não deve chegar.

Falamos da liberdade e da democracia. O Chega defende a liberdade e a democracia, certo?
Certo.

Ao estar a retirar este apoio e ao estar a nomear algo que é produzido de livre e espontânea vontade, e que tendem a dizer que é algo que representa uma ideologia em que, por acaso, é aquele tema, mas podia ter sido de qualquer, não está a tirar um bocadinho dessa liberdade e dessa democracia a que a cultura tem direito?
Se fossem peças equilibradas e que mostrassem o bom e o mau das várias linhas políticas, se calhar nós não tínhamos a mesma medida. Neste momento, o que vemos são peças que são deliberadamente sempre no mesmo sentido.

E em que sentido?
É o sentido da parte de LGBTQIA+, da parte do “Manual do Bom Fascista”, que é uma linha do conservadorismo, e aquela negatividade na peça. Portanto, nós não podemos concordar com isso.

Mas estamos a falar de um apoio que ia permitir ajudar a resolução de um trabalho anual. Não acha que está a cortar as pernas às pessoas nesse sentido? Sendo necessário o apoio?
O apoio pode fazer falta, mas pode fazer falta se houver uma linha equilibrada de pensamento e de demonstração das ideologias que existem. Não podemos estar a financiar uma coisa que é sempre a mesma coisa. E nós vemos isso praticamente em todo lado. Se formos ver as críticas que existem nas redes sociais, são sempre na mesma linha.

E é que no caso do Teatro Estúdio Fontenova nem estamos a falar de algo que eles fizeram. Mencionou, na reunião, eventos em que participaram
Não. Também tinham peças. Agora não consigo nomear, mas também tinham peças de alguma índole.

Existe divisão em todo o lado. Há pessoas que não são religiosas, por exemplo.
Mas por isso é que estamos numa linha democrática. Não temos nada contra a cultura. Não temos nada contra tudo o que sejam raízes ou tradição. Não deixamos de dar apoio à GATEM, que é uma companhia que faz cultura, que faz o seu papel, mas que não tem esses traços ideológicos que nós detectámos nas outras duas companhias.

Se fosse uma companhia de teatro que produzisse apenas peças sobre pátria, família e Portugal, vocês aceitavam o apoio para essa companhia? Porque aceitaram apoiar outras companhias de teatro e rejeitaram estas duas, com base nesse pressuposto. Quer isto dizer que o Chega só apoia aquelas cujas ideologias concorda?
Não. Vamos lá a ver… Nós concordamos que seja feito apoio à cultura dentro de uma linha de peças que não transmitam uma ideia errada de divisionismo e que levem as pessoas a tomar linhas de opção. Nós apoiamos a cultura, cultura. Não é cultura com ideias, a transmitirem ideias e a levarem linhas ideológicas que nós não temos de apoiar.

O que é que querem trazer de novo para Setúbal?
Nós queremos trazer para Setúbal desenvolvimento económico. Vamos apresentar alguns projetos para desenvolver a parte da cidade junto ao rio. Queremos que a segurança seja uma linha contínua do nosso projeto porque achamos que, sem segurança, não conseguimos trazer pessoas para a cidade. Cada vez há mais insegurança, apesar de haver alguns partidos que diziam que eram só sensações. Não, é uma realidade. Queremos captar investimentos, trazer novas pessoas, novas empresas, que acho que fazem muita falta, neste momento. Tínhamos um projeto para um edifício de startups e, no futuro, queremos trabalhar e apresentar este projeto. Depois, se o executivo achar que é um projeto que pode ter interesse, teremos todo o gosto em fazer. Já tínhamos negociações com várias universidades, que trabalham a parte marítima e tínhamos já alguns acordos que vamos tentar desenvolver mais à frente.

Agora, o tema da Datarede. Qual é a posição do Chega quanto ao estacionamento tarifado, e visto que agora foi feito um novo contrato e que é visto, por alguns partidos, como estando à margem ou chegando a ser, alegadamente, ilegal?
Nós achamos que o que foi feito é um mal menor. Havia duas posições: ou mantínhamos o contrato antigo e deixávamos avançar os processos que existem em tribunal, e, pelos pareceres que nos foram dados, feito por empresas de auditorias externas, levava no sentido em que a câmara ia perder os processos que estavam a decorrer, ou se aceitava este novo contrato. Não é o melhor. Não estamos de acordo com todo o processo que foi criado desde o início. Apesar de não estarmos cá, achamos que o processo foi todo maltratado. Ou continuávamos o contrato por mais 35 anos ou por mais dez. A ideia era também, e nós transmitimos logo desde o princípio, que parte do estacionamento tarifado devesse ser controlada pela câmara para ficar com as receitas. Achamos que tem muito mais lógica do que optarmos a passar a empresas externas.
(22:23)

O Chega levantou o tema da Fertagus na Assembleia da República. Em Setúbal, estão a pensar apresentar alguma ideia ou proposta para resolver os problemas de excesso de passageiros e demais perturbações? 
Sim. Não conseguimos entender como é que a capital distrito, a partir de uma certa hora, tem menos comboios do que tem, por exemplo, Coina. Aproveitaram a situação da Covid-19 para reduziram carruagens e lugares e isso nunca foi corrigido. O tema foi levantado em plenário na Assembleia da República e nós estávamos à espera que fosse levantada essa situação. Vamos ver agora, depois aqui, em termos de autarquia, como é que vamos responder a isso. Temos a ideia de pedir esclarecimentos. As pessoas vão para Lisboa como sardinhas em lata e não é esse o intuito do transporte das pessoas para irem trabalhar e para voltarem para casa.

No que toca à localização da Feira de Sant’Iago. Estamos mais perto do verão e o PS, por exemplo, deixou claro que quer trazer a feira de volta para o centro da cidade, ao passo que a CDU, na anterior gestão, declarou querer mantê-la no Parque das Manteigadas. E o Chega? 
No nosso programa, tínhamos ideia de trazer a feira para a cidade, mas depois avaliámos e a ideia era no Parque da Várzea. O nosso estudo foi nesse sentido, mas, depois de falar com algumas pessoas, disseram que era muito difícil ser aí. Temos noção que na Avenida Luísa Todi, com a configuração que tem hoje em dia, também seria muito complicado. Ia criar um caos de todo o tamanho. Temos noção disso, mas se me perguntarem a mim, enquanto setubalense, se gosto da feira lá em cima… também não gosto.

Numa suposição, se chegar uma proposta para mudar o local da feira, o Chega é a favor de mudar ou é a favor de a deixar onde está?
O Chega vai ter a mesma posição que teve desde o princípio. Vamos votar o que acharmos e sentirmos que é melhor para Setúbal, seja qual for a força que apresentar uma proposta que nós consideremos benéfica, nós votamos a favor. Não vamos rejeitar propostas só porque é de uma força política ou de outra. Isso não vamos fazer porque é prejudicar Setúbal.

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