Desde a recordação dos tempos de criança, em que trocou os hábitos mais religiosos pela descoberta da cultura, numa mudança de Lisboa para Almada, até à criação de uma das primeiras comissões de moradores do País, na altura do 25 de abril de 1974, Maria das Dores Meira, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, relembrou o orgulho que sente pela mãe, e a influência que teve no seu crescimento — enquanto ser humano, e como mulher.
A vencedora, pelo movimento independente Setúbal de Volta, das eleições autárquicas 2025, realizadas a 12 de outubro, aborda momentos íntimos e fundamentais do seu percurso de vida, que a moldaram enquanto pessoa e profissional, mas também na política. As ideologias, sentido de responsabilidade e dever fizeram parte do caminho, entre as escolhas que fez — desde a história da “TiMari” e da sua moca, até à criação de muitos projetos desenvolvidos no concelho sadino.
Em entrevista ao Revela Arrábida, a autarca fala ainda do que pretende manter e do que quer trazer para a cidade nos próximos quatro anos de mandato, como por exemplo a proposta da criação da polícia municipal, construção de mais fogos e, na mais recente deliberação aprovada, a CIM (Comunidade Intermunicipal) da Península de Setúbal.
Queremos conhecer a Maria das Dores Meira. Qual é o início do seu percurso?
A Maria das Dores Meira nasceu em Lisboa, Santo Amaro, Alcântara, e depois vivi nas portas de Benfica. Com 13 anos, fui morar para Almada e, até aí, foi uma educação muito tradicional. Os meus pais eram católicos, gente modesta, pese embora o facto de terem, das duas partes, gente com posses, mas o meu pai às vezes tinha, assim, uns devaneios e depois a família zangava-se com ele, daí nós termos vivido não naquele ambiente um pouco de média, média-alta, mas num ambiente mais modesto. Nesse sentido, os meus pais entenderam sempre, porque eram católicos, que a educação tinha de ser muito religiosa, muito católica. A Maria das Dores fez o que os pais acharam melhor, que era fazer a catequese, frequentava à igreja, fui escoteira, fui vizinha, e tudo muito bem, até aos 13 anos de idade, quando vim morar para Almada. Aí, a coisa começou a estragar-se um pouco.
Em que sentido?
O ambiente já não era assim tão católico, tão religioso e, pese embora o facto de os meus pais tentarem que seguisse aquela educação, já era mais complicado. Havia teatro, música, dança… E, com 13 anos, começa-se a olhar para outro tipo de atividades. Eu dizia, agora, à minha neta, com quem não conseguia almoçar quase há um ano por causa da campanha e destas atividades todas, e este fim de semana estive a almoçar com as duas netas, e uma delas dizia: “Avó, os meus professores (porque ela anda na Emídio Navarro, como eu andei), no âmbito dos 70 anos da existência da Emídio Navarro, disseram que perguntasse aos avós, ou aos pais, se tinham passado pela aquela escola e eu sei que tu andaste na Emídio” e é engraçado, que dizia-lhe que foi aí — andei na Anselmo Andrade até aos 14 e depois é que mudei — que fiz parte de uma peça de teatro que se chamava “Morte e Vida Severina”, de Jorge Amado.
Entrou na vida cultural dessa escola, portanto…
Fiz parte de um grupo de dança folclórica, em que me vestiam como homem, porque as turmas eram só de raparigas, estávamos em 1972, e o rancho folclórico tinha de ter rapazes e raparigas. Portanto, umas vestiam-se de rapazes e outras de rapariga. E eu fazia de rapaz, e cantava uma canção que ela achou muita piada, que não vou cantar agora, aqui, porque senão é uma vergonha, mas cantei-lhe a canção, que gravou e levou para a escola. Ali, era já um outro ambiente. A minha mãe dizia-me muitas vezes “não apanhes nada do chão porque podes ser presa”. Eu não percebia porque é que podia ser presa, em 1972, e às vezes viam-se os papéis no chão do MRPP. Diziam “Liberdade nas colónias”, “Contra a repressão, contra o Salazar”, etc… Em 1973, já se falava no Marcelo Caetano.
E nesse ano continuou a notar diferenças?
Em 1973, tive a primeira turma mista, que apareceu na Emídio Navarro. Em 1974 foi a loucura final. Tinha 16 anos e foi dos momentos mais bonitos da minha vida. Não parava em casa um segundo porque todos os dias havia manifestações, havia coisas para reivindicar, e todos os dias aconteciam coisas. Trabalhava, na altura, num escritório de registo de marcas e patentes, em Lisboa, na Avenida Almirante Reis, em frente a Portugália. Quando saia, às 18h30 da tarde, havia sempre manifestações na Baixa. Ia todos os dias para a manifestação, e vinha para Almada, e, portanto, foram momentos extraordinários que o povo português passou e eu tive o privilégio de viver nessa época.
Dado esse interesse, teve algum papel relevante nessa altura, em alguma matéria?
Em maio de 1974, ajudei a constituir uma das primeiras comissões de moradores que existiu em Portugal, e na organização do de um grupo de crianças que se chamavam “Pioneiros de Portugal”, e também foi um dos primeiros núcleos a aparecer. Foram muitos anos de entrega a esse tipo de atividade, à atividade com crianças. Depois, fui ficando responsável do concelho e, à medida que foram aparecendo mais grupos, fui ficando responsável da região, e, mais tarde, fui responsável nacional dessa organização. No local onde trabalhava, ali na Cova da Piedade, junto ao antigo Pão de Açúcar, dava alfabetização, fazia bancas a vender unidade, porque era do MDP/CDE, e só em 1976 é que fui para o PCP. Foram momentos e muitos anos de muito trabalho, muita luta, muita vivência. Casei em 1975, em 1976, tive um filho, e sempre, sempre, sempre numa grande atividade.
A ligação, digamos, com a política vem já das manifestações antes do 25 de Abril, é isso?
Não, antes do 25 de Abril, a minha mãe avisava-me era para não pegar em papel nenhum e eu não pegava. Na Emídio, existiam duas pessoas muito complicadas: era o porteiro da escola, que era da PIDE, e toda a gente sabia. Ele podia ver-nos a apanhar aqueles papéis e sermos presos. E tinha a professora de Matemática, a professora Ilda Pimentel, que também era da PIDE, e também todos sabíamos. Tínhamos um medo daquela senhora… sabe aquele filme da Cruella? Ela era parecida, só não tinha a mancha branca no cabelo. Mas era má e uma mulher da PIDE. E tive uma outra professora que me marcou muito, que era a professora Maria Rosa. Foi minha professora da primária e foi minha professora do Crisma, porque eu fiz a Primeira Comunhão, o Crisma, a Comunhão Solene, até ir para Almada. Os ventos são outros, o clima era outro. Não tinha nada a ver com Lisboa. E isto para dizer…
Estávamos a falar da entrada na política.
A entrada na política foi quando se deu o 25 de Abril. Foi assim uma sensação única. Tinha 15 anos quando acabei o curso geral de Administração e Comércio, o quinto ano antigo, onde se sabia muito mais do que hoje na faculdade, dependendo dos cursos. Antes de ir trabalhar, nesse último ano, tinha uma professora de Contabilidade que um dia chegou à sala de aula e deu um papel químico, e nós ficámos a olhar para aquilo. Ela pediu para nós virarmos o papel químico, e na parte de trás, preta, tinha escrita a canção “Tourada” (Fernando Tordo), com uma letra revolucionária. Essa era uma das únicas canções que passou no lápis azul da PIDE — e aqui também tínhamos o lápis azul, nesta câmara, no mandato passado. A PIDE era estúpida e não percebeu nada daquele texto. A música foi para o Festival da Canção e ganhou com aquela letra. A professora adaptou para uma música revolucionária.
Ainda guarda essa folha?
Ainda hoje guardo, 50 e tal anos depois, aquele químico. Passado umas semanas, acabou a escola, eu tinha 15 anos, e comecei a trabalhar em agosto. No ano a seguir, dá-se o 25 de Abril, em 1974, e eu andava com aquele papel, a cantar a canção em linguagem revolucionária. Quando comecei a trabalhar, o que eu queria ser era empregada de escritório.
Porquê?
Porque empregada de escritório, na altura, era, assim, um lugar de algum destaque. Tinha consciência de que os meus pais não podiam ir a mais do que aquilo, porque, para estudar, tinha de fazer a admissão à escola técnica e aos liceus. Existiam dois ramos. Na quarta classe, a minha mãe tinha de pagar 200 escudos à professora primária que fazia a preparação, durante um ano, para a admissão, e a minha mãe dizia “não tenho dinheiro para pagar os 200 escudos”, porque a minha mãe pagava 200 e tal escudos da renda de casa. Aquilo era tanto como a renda de casa. O meu pai trabalhava na Carris e, portanto, o dinheiro não chegava. A minha professora primária ofereceu-me a preparação para a admissão. Aí, tinha de fazer um exame às escolas técnicas ou ao liceu para ver para onde é que queria ir. A minha professora queria que eu fosse para os liceus, para tirar um curso superior. A minha mãe, que sabia que não tinha condições económicas para isso, dizia “não, ela tem de ir para a escola técnica, porque se chegar a funcionária de escritório já é um ordenado muito bom, e tem uma vida melhor”.
E teve bons resultados?
Lembro-me que tive 15 na prova de escola técnica, e 17 nos liceus. Mas fiquei na escola técnica. Tinha de comprar farda da Mocidade Portuguesa, que era obrigatório termos para ir para a escola técnica, e a farda de Educação Física, com a sainha azul-escura, porque não podíamos usar calções, isto tudo com o símbolo do regime. A minha mãe não tinha dinheiro para os livros e foi à Gulbenkian, com quem tenho uma dívida de gratidão para o resto da vida, que me emprestava os livros todos, até eu chegar ao quinto ano. Tinha de devolver no final de ano. E as roupas obrigatórias, consegui com pessoas amigas, que subsidiaram, também com alguns familiares, para ir para a Marquesa da Alorna, onde andei, em Lisboa, até aos 12 anos. Com 13, fui, como disse, para a Anselmo e depois, então, para a Emídio.
Foram anos difíceis, compreendo.
Tinha vergonha de ter os livros usados quando os meninos tinham, quase todos, os livros novos, com as capas novas, quando começava o ano letivo. A minha mãe ia com a lista dos livros, que não mudavam todos os anos, naquela época, à Gulbenkian, e a Gulbenkian dava uns livros que já tinham sido usados. Muitas vezes ia a pé para casa, para poupar o dinheiro do elétrico, que a Marquesa da Alorna era na Praça de Espanha, e eu tinha de ir de elétrico para as portas de Benfica, que era onde eu morava, e eu poupava para ir comprar papel do Pato Donald, por exemplo, muito bonitinho, para forrar os livros, para não se perceber que eram usados. Ou então, a minha mãe dava-me 2 e 500 para comprar, no bar da escola, uma sandes de fiambre, e eu comprava uma sandes de manteiga, que custava 10 tostões. Poupava 15 tostões. Porque ela dizia que não tinha dinheiro para o papel, como eu queria comprar. Foram momentos que nunca deixarei de recordar, porque acho que tive uma mãe do outro mundo e que fez de mim a mulher que sou hoje.
E em relação à sua profissão, como estava a explicar?
Nas escolas técnicas, chegar ao quinto ano, ao curso comercial, significava que podia ir para a banca, para os seguros, para a TAP, e eu gostava muito de ir para os escritórios da TAP. Ser bancária na altura, tinha uma importância muito grande. As pessoas tinham, naquela época, algum prestígio em ser da banca, em ser dos seguros. O meu irmão trabalhava numa empresa de contabilidade, no mesmo prédio onde estava o escritório para onde fui trabalhar, e iam para lá muitas raparigas. Era só raparigas, neste escritório de marcas e patentes. Tinham um escritório em Angola e outro em Moçambique. O meu irmão foi pedir aos senhores se precisavam de uma jovem. E lá fui. Metiam uma data de miúdas que saíam da escola e que iam para lá experimentar, e depois, dali, é que seguiam para a banca etc.
E a jovem Maria das Dores Meira, saiu?
Nunca saí para lado nenhum. Tive montes de colegas que entraram e saíram, entraram e saíram, e eu comecei a adorar o registo de marcas e patentes. Ali fiquei dos 16 aos 24 anos. Nessa altura, já tinha um filho com três anos, e o meu patrão fechou o escritório sem aviso prévio, enquanto eu estava de férias. Era eu que tomava conta dos grandes clientes, como a Torralta, a TAP, a Brisa. Decidi que não ia trabalhar para mais patrão nenhum e, com 24 anos, decidi abrir o meu primeiro escritório.
Torna-se empresária.
Tornei-me empresária no âmbito das marcas e patentes. Passado uns anos, em 1980, fui reconhecida, por mérito, Agente Oficial da Propriedade Industrial. Hoje tem de ser por exame, mas naquela altura, esta área tinha poucos agentes e era muito fechado. Quem conseguia lá entrar, era por mérito, e convidaram-me a pertencer aos quadros. Na altura, nem 50 havia. Hoje, já existem 300 e tal. Nessa época, decidi tirar o curso de solicitadora porque achava que ser Agente Oficial da Propriedade Industrial, quando era necessário ser advogada, e eu tinha o quinto ano. Ninguém me disse para eu fazer o curso de direito, mas eu achava que não era muito justo. Além do mais, tinha de fazer reclamações e contestações em processos de marcas e, às vezes, só pedia a alguém para assinar, porque quem fazia aquilo tudo era eu.
Se sabia fazer, só tinha de poder fazer, é isso?
Sabia fazer, mas tinha de pedir a alguém, neste caso, uma advogada que trabalhava connosco, para assinar. Quando fui tirar o curso solicitadora, tive de tirar o equiparado ao 12.º ano, e tirei em dois anos, num externato, em Lisboa, e quando estava no curso da solicitadora, que era só aos fins de semana, pensei “não me faz sentido nenhum ser solicitadora e não ser advogada, portanto, também tenho de ir para a advogada”. Comecei a estudar e tirei os dois cursos ao mesmo tempo. Foi assim, um tirinho. Fui pouco tempo advogada e solicitadora, porque, entretanto, em 2001, tive o convite, de pessoas de Setúbal do PCP, para fazer parte da câmara, e eu já tinha aqui escritórios. Fui alargando e já tinha cinco escritórios.
Mas já era militante do PCP?
Fui militante em 1 de janeiro de 1976, quando saio do MDP para o PCP. Portanto, veem pedir para eu fazer parte da equipa para a vereação do coletivo da CDU, que tinha como cabeça-de-lista o Carlos Sousa. Eu primeiro disse que não. Depois perguntei à família. Eles disseram “ah, tu és capaz, e tal”, mas o meu marido dizia “cuidado com os escritórios, depois não vais ter tempo”, mas pensava “vou, vou, eu consigo conciliar tudo”. Ia ser só vereadora e vereadora com os pelouros que se dão às mulheres, não é? Normalmente são os da Cultura, Desporto, Inclusão Social, Bibliotecas, Museus… “Nada de mais”, pensava eu. Nada de mais, não. Aquilo era tudo… era ali que acontecia tudo, e é ali que acontece tudo. Nessas eleições, a CDU ganhou, e quando cheguei à câmara, quase todos os dias ia, para casa à meia-noite, 1 e 2 da manhã. Foram uns anos de muito, muito trabalho.
Em que conciliou as duas coisas?
Não conciliei as duas coisas. É claro que eu tinha muita gente nos vários escritórios e, claro, que se não lhes dava apoio…. Telefonavam-me, mas não é a mesma coisa que estar ao pé, não é a mesma coisa quando os clientes sentiram que não está a responsável do escritório ou a dona do escritório. Não é a mesma coisa. O cliente não quer. Por muito que goste dos funcionários, há coisas que precisavam de ser vistas comigo e eu, às vezes, aos grandes clientes, ia e tirava, às vezes, 1 hora aqui ao trabalho e ia tratar desses grandes clientes. Tudo o resto começou a cair que nem baralho de cartas e tenho, hoje, um pequeno escritório que já, praticamente, não é meu. Fui eu que o fundei, mas não é meu. Só tem lá uma pessoa, às vezes, se há um bocadinho mais de trabalho, duas pessoas, e é essa pessoa que gere o escritório e que recebe o dinheiro do escritório. Portanto, no fundo, esta é a Maria das Dores Meira.
Está a falar de algo que começou muito cedo e que era uma paixão grande para si. E foi a sua profissão. Deixou, para se dedicar à política. Porque é que tomou essa decisão?
Porque sempre fui uma mulher de causas públicas. De trabalho ao serviço do outro. Como disse, em 1974, formei uma comissão de moradores. Não ganhava dinheiro nenhum, como pode imaginar.
Trabalhava para a comunidade…
Trabalhava para a comunidade, e é com muito orgulho que ainda hoje existem registos na RTP1 da minha atividade, na época, que estava sempre a ser filmada. É com muito orgulho que existem registos no COPCON [Comando Operacional do Continente], e que tinham uma base no Alfeite, e que eu ia buscar os militares para dizer “este homem é um fascista, tem que ser preso” porque as pessoas não tinham água, nem luz, e pagavam um balúrdio de renda de casa. Ele explorava as pessoas e fazia mal, se não compravam, por exemplo, roupa à mulher dele, punha as pessoas na rua. Há registos disso comigo. Há fotografias disso. Há registos de eu pedir, na primeira assembleia, em Almada, das comissões de moradores, e ainda uma gaiata, que fosse demitido um profissional da GNR porque era esse o tal que fazia os despejos para a população ficar na rua. E foi demitido, porque, na altura, havia aquela aliança do MFA [Movimento das Forças Armadas]. Tudo isto, que eu achei de uma beleza extraordinária, sem nunca ter havido grandes excessos, que não concordo com os excessos, não concordo com as ocupações das casas, não concordo com nada dessas coisas. Fiz tudo o que tinha de ser feito, como deve de ser, acho eu. E fui presa, algumas vezes.
Porquê?
Não me dava medo nenhum. Fui presa porque, eu dizia aos militares para irem buscar aquele tal senhor, para ser obrigado a pôr água numa data de casas, para pôr condições mínimas, e os militares iam buscá-lo de jipe. E o que é que ele fazia? Ele ia ao Alfeite, prometia que fazia aquilo tudo, mas não fazia. Depois ia buscar a GNR, nos primeiros dias pós 25 de Abril, que ele ainda não tinha percebido o que é que tinha acontecido em Portugal. Ia depois, então, buscar-me e prender-me porque eu tinha instigado os militares, e ficava ali umas horas.
Era para intimidar, digamos.
Sim, a GNR ia buscar-me, no jipe, e pumba, para o posto. Fui umas três vezes, e daí a umas horas, era um mar de gente à porta da GNR, para eles me soltarem. Eles tinham medo e soltavam, se não diziam que iam buscar o COPCON para me irem lá buscar à prisão, e algumas pessoas eram ciganas, que usavam aquelas saias até aos pés, com os aventais…. Havia uma cigana, que já morreu, e eu era amiga daquela gente toda, que levava uma moca. Sabe o que é uma moca?
Penso que não…
Em Rio Maior é que havia as mocas. Era assim um pau, muito comprido, e que tinha uma bola na ponta, para bater. Ela levava aquilo preso na cintura, por baixo, entre a saia e o avental, e ia ali a moca da “TiMari”. Chegava ao pé dos GNR: “Ahhhh, eles que venham cá para fora”, levantava a moca, e eles ficavam a olhar [risos]. Aconteceram coisas que só quem viveu, percebe. Acho que vocês não entendem, nem ninguém entende, o que se sentiu, e a melhoria de vida que aquelas pessoas tiveram.
Em que sentido?
Nós ocupámos um bairro, que, antes do 25 de Abril, estava a ser feito para a GNR, e as pessoas lá em baixo, viviam em barracas. Nós ocupámos aquele bairro todo e durante dois anos fazíamos uma escala de serviço para dormir dentro dos prédios. Eram dez prédios que estavam a ser feitos. Conseguimos, durante esse tempo, fazer uma vigília. Entretanto, fizemos a ocupação no papel, aquilo passou para a alçada da Comissão da Câmara. Na altura, era a comissão administrativa, ainda não tinha havido eleições livres. Em 1976 é que houve as primeiras eleições para as autarquias e, portanto, aquela comissão administrativa, que tinha à frente um homem extraordinário, o Proença que disse: “sim senhor, os prédios vão ser para vocês, mas têm de tomar conta deles antes que alguém os ocupe”, porque toda a gente andava a ocupar casas e prédios. Então, fazíamos só vigilância lá dentro. A população toda, cerca de 3000 pessoas, fazia esta vigilância e eu era a responsável da comissão de moradores, era a que trabalhava mais naquilo tudo e, portanto, fazia todos os dias, as escalas. Quem fica, quem não fica, quem está de dia, quem está de noite…. As pessoas mais velhotas faziam de dia, os que estavam mais aptos, os mais novos, faziam de noite. As casas depois foram entregues àquelas pessoas e foram momentos de choro porque achavam que nunca iriam ter casa na vida delas.
Recordou-se, no convite que lhe foi feito, desses momentos?
Quando me convidam para uma coisa destas, só me veio à cabeça a sensação do que foi viver aqueles momentos. Pensei: “ainda estou nova, vamos embora a isto. Vai correr bem”. Pensava que ia conseguir dar conta do escritório onde ganhava muito dinheiro. Tinha cinco escritórios onde ganhava, em 20 minutos, aquilo que não ganho aqui num mês. Eu dizia: “a vida está toda organizada e está tudo bem, os escritórios, mesmo que baixem um bocadinho o rendimento, vou conseguir aguentar, e tal, porque só quero estar lá dois mandatos, e vou sair”.
Não foram dois mandatos…
Foram muitos mandatos. Foram cinco mandatos. E até ficar sem pessoal na empresa, que iam saindo, e as últimas quatro tiveram de ser indemnizadas, porque, de facto, já não havia dinheiro para pagar sequer ordenados. Ainda tentei pedir dinheiro ao banco para segurar os escritórios. Tive de pagar, com o meu ordenado daqui [câmara municipal], o dinheiro da indemnização a essas quatro funcionárias, mas fiquei, ao mesmo tempo, feliz, embora essa vida estar a ser muito boa financeiramente, e que se repercutia no bem-estar que eu dava também à minha família, como é óbvio, não só o meu filho, mas desde irmão, aos meus pais, a toda a gente. Repercutiu-se isso tudo. A vida baixou, não foi muito…. foi muito, muito, muito, muito.
Alguma vez se arrependeu dessa decisão?
Não, porque acho que tudo o que eu fiz por muita gente aqui em Setúbal, pela transformação da cidade, que eu tenho consciência de que fui também uma das peças fundamentais, não fui sozinha, porque ninguém trabalha sozinho. Trabalhou muita gente, muitos trabalhadores da autarquia, muitos trabalhadores das freguesias, muitos autarcas que comigo estiveram, que passaram por aqui, quer nas freguesias, quer na câmara. E também muitas instituições, o movimento associativo e empresas. Pedi muito dinheiro às empresas para mecenato, não havia dinheiro na câmara e, portanto, as empresas chegaram-se à frente e pagaram ao movimento associativo. Não me posso esquecer que o primeiro ano que para aqui entrei e não havia dinheiro, eu fui pedir.
Em 2001?
Sim, em 2001 nós tivemos as eleições, foram em dezembro de 2001 e, portanto, nós tomámos posse em janeiro de 2002. Quando tomámos, tínhamos consciência, sabíamos que estava muito mau, mas não em falência. Estava em falência técnica, praticamente, não havia quase dinheiro para pagar salários. O presidente, na altura, dizia “tu não vais poder fazer nada na Cultura e no Desporto” e eu dizia, “então, mas agora sou um biblô?”. Isto há 23 anos atrás. Eu, que nunca andei a pedir nada a ninguém, trabalhei muito para ter o que quis, e foi muito, para viajar o que quis, e para viajar, mesmo, e ter férias no estrangeiro. Não foram as viagens que eu fiz de três, quatro e cinco dias, dependia, aqui na câmara. Quando ele disse, “não há dinheiro”, eu não cruzei os braços… eu disse “vou bater à porta das empresas e as empresas têm que nos ajudar”, têm que ter responsabilidade social porque se o movimento associativo se acaba, as empresas não ficam de boa saúde.
Porque diz isso?
Se não houver cultura, desporto e educação, é uma cidade que não presta. Se não houver movimento associativo, a cidade não presta. É preciso ter consciência, é só fechar os olhos e pensar assim: não há teatro, não há desporto, não há movimento associativo, que são às vezes, a essência do bairro onde eles estão inseridos, não há nada disto. Então, do ponto de vista da segurança, do ponto de vista da marginalidade, começamos a ter outros problemas. A sociedade deixa de ser atrativa. Qual é a empresa que tem aqui os seus funcionários a trabalhar? Eles vão viver para outros sítios onde tenham mais atratividade. Se não há escolas, onde é que põem os filhos? Vão para outros sítios, isto não interessa nada, não é? Isto pode levar à deslocalização das empresas. Têm que ser responsáveis pela cidade funcionar, por eles serem também grandes empresas. Seja na área da gastronomia, seja na área dos vinhos, seja naquilo que a Península da Mitrena faz. Foi isso que eu comecei a fazer. Comecei a visitá-los a todos e toda a gente me ajudou.
Recorda-se de algum caso em específico?
Eu fui ao Pedro Queiroz Pereira, ao presidente, ao dono, da Secil, pedir para ajudar no primeiro ano e ele deu-me 50 mil euros. No segundo ano, pedi-lhe 450 mil, e até hoje, todos os anos, eles distribuem pelo movimento associativo 450 mil euros… desde 2003 até hoje. Já lá vão 23 anos. Passado quatro anos, já eu era presidente, depois deles terem dado esse dinheiro, havia sempre uma cerimónia tripartida entre a Câmara, a Secil, com o Pedro Queiroz Pereira, e o movimento associativo, onde se distribuía. Dávamos um mapa, a dizer “a estes damos 4 mil, aqueles 2 mil, aos outros 10 mil”, dependia da atividade de cada um. A determinada altura, pus a Secil em tribunal. Por causa da co-incineração, porque nós não queríamos aqui co-incineração em Setúbal.
Como reagiram?
A Secil ficou muito ofendida porque nos ajudava tanto e nós metemo-los em tribunal por causa da co-incineração. Eu disse ao Pedro Queiroz Pereira: “não estamos à venda. Não. A saúde das pessoas, não está à venda, não se vende por 450 mil, não tem preço. Se isto cria danos à saúde das pessoas, você tem que deixar de fazer co-incineração”. Ele disse que “não fazia mal” e eu respondi “temos de provar”. Então, fomos para tribunal.
Então como se manteve o mecenato?
Esta dádiva ao movimento associativo mantém-se, sem a câmara municipal estar na entrega do dinheiro. Passou a haver só um protocolo entre a Secil e o movimento associativo e eu fiquei toda feliz na mesma. Eu quero lá saber de não estar na fotografia, de nós não estarmos lá inscritos. Não quero saber nada disso. O que eu quero é que, lá porque está zangado connosco, não deixe de pagar a quem não tem culpa nenhuma nisso. E, portanto, até hoje… o Pedro Queiroz Pereira infelizmente já faleceu há uns anos e a família, com quem eu tenho boas relações, decidiu que continua a manter-se o mecenato dos 450 mil euros. Eu acho que isto é notável e quando estas coisas acontecem, nós dizemos que ajudámos a mudar a vida das pessoas… nós não ganhámos muito dinheiro… olha, paciência. As coisas estão orientadas, já tenho um filho advogado, tenho duas netas, uma está em Biologia, na Faculdade de Ciências de Lisboa, a outra é bailarina, na Academia de Dança, em Almada. Excelente! Está tudo excelente e, portanto, quando eu saí da câmara, por ter perdido a câmara de Almada, fiquei como vereadora sem pelouro, mas assumi a minha responsabilidade. Sentei-me na cadeira que os almadenses me reservaram. Foi a decisão dos almadenses, foi a confiança que os almadenses nos deram e, portanto, nós tínhamos que estar ali a cumprir o mandato. Assumi, com muita dignidade, três anos de oposição.
O que se seguiu?
Entretanto, pedi a reforma. Já tinha tempo para isso, trabalho desde os 15 anos. Dediquei-me à advocacia na mesma, porque podia fazê-lo, não era incompatível e, portanto, foi a segurança social que disse, que podia exercer na mesma. Pago as minhas cotas à Segurança Social e à Ordem dos Advogados. Tinha esse escritório, que já não é meu, como disse há pouco, mas que às vezes dou lá uma ajuda, e vim para este escritório que estava fechado. Comecei a fazer advocacia, a ter alguns clientes interessantes e a dar aulas na Escola de Hotelaria. Andava por aqui, em Setúbal. Tive de suspender, outra vez, a reforma, que não é compatível com a atividade que estou a ter agora, e olhe, mais uma vez, se estivesse na reforma e na atividade de advocacia, estava, outra vez, a ganhar mais do que aqui na câmara. Mas também não interessa nada. Então, as pessoas apanhavam-me na rua, quando vinha aqui comer à Baixa, e diziam “você tem que voltar. Isto está pavoroso, parou, estagnou, isto é de uma incompetência, não sabem fazer nada”.
As pessoas é que a abordavam?
As pessoas é que me abordavam e era todos os dias isto: “Você tem que vir, você tem que vir”. Eu fiquei com uma excelente relação com toda a gente, com as instituições, com o tecido empresarial, com as pessoas individualmente consideradas… com toda a gente. Eu também ia vendo a partir da minha segunda habitação, no mesmo prédio do meu escritório. Estava lá em cima e olhava para a cidade e dizia, “isto está a ficar horrível”. A higiene e limpeza, especialmente os espaços verdes, os cemitérios. Depois era a gestão, toda muito avulsa, a não se fazer nada, e eu a assistir quase que de cadeira. Quando ia aos restaurantes, via grandes almoçaradas do presidente e de alguns vereadores. Começavam à 13 horas e, quando eram umas 17 horas, ainda ali estavam. Eu passava e as pessoas diziam: “Olhe, passam por aqui nem bom dia, nem boa tarde dizem às pessoas. Não falam. Passam com uma grande arrogância. Não tem nada a ver consigo. Você está a fazer muita falta, tem de voltar”. Isto foi crescendo, até que eu decidi que sim, ia voltar como independente.
Foi aí que se desvinculou da CDU?
Tinha que sair do PCP, não é? Não era justo, nem podia ser. Na altura em que saí do PCP, entreguei o meu lugar de vereadora de Almada. O meu lugar, não era meu, era da CDU. Eu estava ali em representação da CDU. Há pessoas que passam a independentes e ficam na mesma nos cargos e nos lugares porque entendem que aquele é o seu lugar. Eu entendo que aquele era o lugar que eu estava em representação da CDU. Entendi que eu tinha de sair. Para fazer a campanha eleitoral, podia ter ficado naquele lugar porque só tinha que ir lá quase de 15 em 15 dias, à segunda-feira à tarde. Tinha tempo, mas entendia que era incompatível do ponto de vista, não do legal, mas do moral e ético. Aquele não era o meu lugar. Aquele era o lugar da CDU. Portanto, eu entendi entregar o lugar à pessoa que estava a seguir na lista.
Qual é a retrospetiva da passagem em Almada?
Tive muito prazer em estar naquele lugar. Foi o lugar, do ponto de vista democrático, que me foi destinado. O povo é quem mais ordena e o povo decidiu. Deram mais uns votinhos, mas não foram suficientes para ganhar a câmara. Tive que fazer ali o meu papel, aprendi também muito. Conheci muitas coisas em Almada, embora lá more, é sair de manhã e entrar à noite, não é? Desde o meu tempo, muita coisa mudou. Não conhecia as instituições, não conhecia o movimento associativo, não conhecia as empresas. Foi um ano também de muita rua, que eu fiz ali campanha, mas não foi o suficiente para ter ganho, pronto. Tivemos quatro vereadores, que foi muito digno. São os mesmos que hoje temos aqui. É assim… é a vida, é a democracia a funcionar. No dia em que eu perdi as eleições de Almada, tinha o telemóvel carregado de mensagens, do povo de Setúbal, a dizer: “Deus escreve direito por linhas tortas. Ainda bem que você perdeu”.
Para regressar?
Exato. Porque se tivesse ganho, não regressava, e não regressava porque respeitava muito o voto das pessoas e, portanto, ficava lá aquele mandato. Com certeza que as pessoas iriam gostar do meu trabalho e iria ficar lá mais um, e mais um, aquilo que a lei permite. Como não ganhei e fui solicitada para voltar, e como gosto muito desta terra, achei que ainda estava com toda a pedalada para continuar o trabalho durante mais quatro anos.
No meio de tanta confusão que é o mundo política, há algum refúgio?
A casa, a família, é o meu refúgio. Também muitos amigos. Tenho, de facto, muitos amigos. Já tinha muitos outros, mas neste tempo de campanha, descobri mais. É como tudo na vida. Depois, no caminho, também encontramos pessoas que achamos serem nossas amigas, mas, afinal, não eram. Ainda bem que eu descobri que não eram, porque assim também vamos tirando essas pedras do nosso caminho. Houve neste percurso, também, uma limpeza nesse ponto de vista, mas encontrei outros amigos… mas que amigos… que gente fantástica. Eu achava que conhecia Setúbal inteira. Era mentira, não conhecia nada, porque veio ao meu caminho gente fantástica através deste processo eleitoral. Tive que constituir equipas independentes para todas as freguesias, para a assembleia municipal e para a câmara municipal. Nessa constituição, todas elas tiveram gente a mais do que aquilo que era necessário, por lei, e já tínhamos que dizer “agora já não podemos admitir, que já dobrou ou já está quase a triplicar, e daqui a pouco o tribunal diz que vamos para um arraial”. Tivemos que começar a dizer “mais não”, mas aí encontrei gente incrível, mas incrível, de todos os partidos.
De todos os partidos?
Quando nós somos mais novos, achamos que o nosso partido é que tem gente séria, o nosso é que tem gente honrada, que quer o bem dos outros, que se entrega a tudo. Mentira. Algumas vezes diziam-me isso e eu ficava um bocado irritada. Há gente boa em todos os partidos, há gente má em todos os partidos e existe gente muito má, também, em todos os partidos. No meu (CDU), houve gente muito, muito má. Gente que vai fazer com que aquele partido acabe, o que é uma tristeza. Gente que já fez com que muita gente daquele partido saísse, até antes de mim, e quando eles saíam, eu ficava muito zangada. Dizia-lhes “porque é que tu estás a sair? Tens que discutir as coisas dentro do partido e as coisas têm que ser discutidas”. Eu discutia dentro do partido e às vezes era ouvida, só que poucas vezes, porque aquilo incomodava. Outras vezes era ouvida e diziam “tens razão camarada, tens razão”, mas tudo aquilo que era dito entrava a 100 e saia a 200, porque incomodava, fazia tirar pessoas de alguns lugares. Depois aprendi que, de facto, não é para se dizer nada porque não tem eco em sítio nenhum. Era tudo mentira. Algumas pessoas não estão nada próximas do povo. É tudo mentira, não estão nada, não querem saber nada do povo.
Consegue dar um exemplo dessa afirmação?
Quando se diz, “vamos ali à Bela vista?”, respondiam “está bem, está bem, mas agora vai lá tu” e eu ia com todo o gosto. Fizemos um projeto, que eu idealizei, e que depois o vereador dessa área o pôs em execução e foi um sucesso. Vai ter que ser um sucesso, porque ele parou um bocado, foi o Nosso Bairro Nossa Cidade. Eu idealizei aquilo. O vereador Rabaçal pô-lo em prática e fez um trabalho notável. Acrescentou, aumentou, até porque a dinâmica do próprio processo o fez aumentar. Foi das coisas mais belas. Mas, onde é que estavam as pessoas do meu partido? Mentira, não estavam lá. O Rabaçal era daquele partido e também era a junta de freguesia de São Sebastião, que, na altura, foi para lá à força. Nuno Costa foi para lá à força. Não foi uma freguesia que tivesse aderido no momento e, portanto, aquilo estava com uma grande dinâmica e eu chamava o presidente da junta de freguesia para estar nalgumas iniciativas, porque era muito importante, e porque era a sua área de atuação. E lá foi à força, mas não os viam lá. Não, não viam lá. Digam-me os nomes, onde é que eles estavam? Iam lá, sim, na altura das eleições, fossem legislativas, fossem autárquicas, porque interessava mostrar, àqueles deputados, que eram os homens do povo e que eles estavam ligados ao povo. Mentira. Faziam a mesma coisa que os outros partidos fazem e vão lá naquelas alturas. As primeiras reuniões, naquele processo, foram reuniões muito duras, mas muito duras. O que nós fizemos à noite na Cáritas e noutros sítios, mas essencialmente na Cáritas, que nos disponibilizava ali o espaço, e eram reuniões onde eu quase levava tareia. As pessoas lembram-se ainda. Muito mudou no coração e na cabeça daquela gente. Acho que contribui para essa mudança.
A sua presença?
A presença… a presença também os fez ter outra atitude. Hoje são pessoas com outra atitude, mas naquela altura gritavam e havia muita gente alcoolizada, muita gente desesperada e as pessoas tinham razão de me tratarem mal, porque achavam que eu era como os outros, só lá ia… até eu dizer “eu estou aqui, não há eleições”, e era o princípio do mandato. Elegemos 300 e tal interlocutores, um ou dois por prédio. Foi maravilhoso estar ao pé dos bairros todos, como o do Viso, dos Pescadores e o do centro da cidade. Toda a gente exige e merece a contrapartida da confiança que eles depositaram em nós e a nossa presença. A nossa proximidade, o nosso interesse em resolver as coisas e a efetiva resolução.
Retomando o tema: estava a falar das amizades que fez e que descobriu na campanha.
Nesse sentido, e nesta caminhada, encontrei muita gente dessa. Gente diferente que gostava quando íamos na campanha. Para já, aderiram ao processo por saberem como é que trabalhava e funcionava. Queriam também fazer coisas daquelas, queriam estar próximas das pessoas e eu dizia, “fantástico, vamos embora” e vieram muitos do PCP. Estão nas listas muitos do PCP, muitos do PS, muitos do PSD e do CDS. Está gente aqui de toda a área e muitos independentes, pessoas que não tinham partido nenhum. Ficámos com uma amizade fantástica. E com uma grande pena em relação ao resultado das juntas de freguesia, mas também entendendo que eram pessoas muito desconhecidas. Algumas, como o doutor Vítor Augusto não era, a Carla não era, mas os outros como a do Sado era, só tinha ali um setor, na Gâmbia, que também era uma pessoa do movimento associativo.
Era mais difícil?
Era mais difícil porque tínhamos ali um Luis Custódio, um homem fantástico, fantástico, no que diz respeito ao trabalho que fez na sua freguesia. Que fez no passado e, depois, nos tempos que correm. Fez um trabalho fantástico e é reconhecido por todos e eu sempre achei que é muito difícil. Os outros talvez não. O Sado, nem por isso, fez um trabalho que merecesse ganhar, na minha perspetiva. É um eleitorado mais fidelizado à CDU, embora nas legislativas viu-se que ganhou lá o Chega. A fidelização que eles tiveram à CDU quer dizer que reconhecem a falta de proximidade à CDU, mas depois nas autárquicas há a personalização do cabeça-de-lista, não é? E voltou outra vez àquela fidelidade, digamos, e os outros era tudo mais complicado. Também o desconhecimento do Setúbal de Volta para muitas pessoas. Procuravam o nome Maria das Dores Meira para a assembleia e para a câmara, mas nas freguesias não tinha o nome Maria das Dores Meira e havia muita gente à procura do meu nome. Depois ficavam um bocado baralhados e votavam num qualquer e isso fez com que o resultado não fosse aquilo que nós gostaríamos. Mas quero dizer que ganhei amigos para a vida. Deus queira que não me engane. De vez em quando enganamo-nos, como lhe disse há pouco, mas foram mais de mil pessoas. É gente muito bonita, gente muito boa. E, afinal, há gente boa em todo o lado, claro. É a conclusão da história.
Tem uma lista de compromissos que quer assumir. Quais são os mais urgentes de cumprir?
Higiene, limpeza e organização dos serviços. Já reunimos com cerca de 1600 trabalhadores [à data de 24 de novembro], 185 serviços, faltam os Serviços Municipalizados de Setúbal, que são 300 e tal trabalhadores, e as escolas, que agora, na paragem do ano letivo, vai ser feito, com 600 e tal trabalhadores. A reorganização dos serviços está já a ser feita. Está quase completa. Vamos levar também à sessão de câmara uma estrutura orgânica diferente, para que seja incluída, nesta estrutura orgânica, a entrada da polícia municipal. A implementação da polícia municipal é fundamental. Vai ajudar a complementar, não substituem a outra [PSP], mas vai complementar muitas lacunas que nós temos aqui no Município em relação à fiscalização, ao apoio a eventos desportivos e culturais, na organização, às vezes, do território, é fundamental a polícia municipal.
Mas vai ser já nas próximas reuniões?
Vai ser no princípio de janeiro, porque primeiro temos de fazer o Conselho Municipal de Segurança. Temos de ter o parecer das entidades todas que fazem parte deste Conselho Municipal de Segurança. O plano está feito, assim como o estudo económico. Está pronto. Temos de discutir com o Conselho Municipal de Segurança. Temos de discutir com os vereadores todos da oposição, como é óbvio, e depois temos de discutir com a Assembleia Municipal. Além disso, a limpeza está a acontecer, e, agora, a constituição da CIM (Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal). Já demos o primeiro passo. Vai ter a sua sede aqui em Setúbal, e a escritura está marcada para 15 de dezembro.
E na área da habitação?
Já fizemos um levantamento todo dos PRR’s atrasados, e há outros que vamos conseguir cumprir. Em relação aos atrasados, já tivemos reunião com o Ministro das Infraestruturas, que gere esta parte da habitação, já estamos a preparar projetos para entrega, nas novas candidaturas, em relação ao Portugal 2030, para fazer cerca de 1000 novos fogos, porque estas que foram entregues não foram validadas, não foram homologadas e, portanto, estes processos vão transitar. É muito importante nas dez prioridades resolver os problemas da habitação.
Está a falar da habitação social?
Sim, porque a outra habitação, a custos controlados, temos já aí uma data de parceiros privados a fazer a habitação de custos controlados. Vão começar agora 400 e tal fogos, ao pé do Alegro, que estavam também à espera de despachos daqui na câmara, e já tiveram esses despachos assim que nós chegámos. Vai ser alargado o Hospital da Luz, que também estava à espera de despachos, já foi feito também esse despacho. Tudo o que era urgente, está a andar. Já temos reuniões marcadas com uma data de ministros. Amanhã [25 de novembro] temos a Administração Interna, por causa da PSP e da segurança, para a semana que vem, na terça-feira [amanhã, 2 de dezembro] temos marcada a reunião com a senhora Ministra da Saúde.
E na área da saúde?
Temos de fazer uma outra Unidade Familiar de Saúde. Estamos muito preocupados porque está para fechar aqui o Centro de Saúde da Beira Mar, e vamos pedir a responsabilidade à senhora Ministra da Saúde, no sentido de as pessoas estarem a sair, não há médicos, tem de lá meter outros médicos, e também temos de falar do funcionamento do hospital. A parte nova ainda não está pronta, e são estas questões que vamos colocar. Está pedido ainda reunião com o Ministro da Educação. Temos também já uma reunião marcada com a Administração do Porto de Setúbal para ser transferida a posse de alguns edifícios que estão na zona ribeirinha para nós [câmara municipal] e falamos da Marina.

