Quem as vê pastar, provavelmente, não nota diferença. As ovelhas saloias parecem, à partida, idênticas a todas as outras espécies, mas escondem dentro de si um tesouro único no mundo. Criadas na Serra da Arrábida, são as grandes responsáveis pela produção do premiado e reconhecido Queijo de Azeitão, através do leite de ovelha. Se essa invenção está consolidada, surgem agora novas ideias que provam as características singulares destes animais – mais concretamente em Palmela.
Nuno Gil, pasteleiro e um dos proprietários do Retiro Azul, é a mente por detrás da invenção dos “Mé Mé”, o pastel de nata criado com leite de ovelha saloia, e apresentado ao mundo a 1 de fevereiro. Não foi às cegas que decidiu colocar este produto numa iguaria. O arroz doce com leite de ovelha foi a primeira invenção, e, conta ao Revela Arrábida, na altura, foi “um sucesso”.
“Depois do pastel de nata com moscatel, ou o de maçã riscadinha, senti-me nessa obrigação [de criar o “Mé Mé”], até porque já era algo que estava há muito tempo na gaveta. Mas chamo ao pastel de natal um pastel mentiroso, porque na sua grande totalidade de confecção, quem o produz, não usa nata, mas sim leite. Embora possa afirmar, com certeza, que é um doce conventual”, elucida.
De entre as dezenas de doces que homenageiam o território, idealizadas e produzidas por Nuno Gil, este é mais um símbolo da admiração que diz ter pela terra e pela história daquela zona. “Quis ir buscar um leite de melhor qualidade, mais puro, mais raro, e veio assim este leite de ovelha, que é um produto da nossa região”, acrescenta.
O nome – “Mé Mé” – surge para descomplicar. “Ao invés de dizer “pastel de nata de leite de ovelha”, dizemos só “Mé Mé”, até porque é, efetivamente, o nome que estes animais reproduzem”, assinala.
Retiro Azul, um espaço centenário
O pastel está à venda no seu espaço, o Retiro Azul, um dos mais antigos do concelho. Apesar de ter aberto portas como café/restaurante em 1939, foi, no ano de 1918, “palco de uma das maiores perseguições políticas na época”, conta o jornal Gazeta de Palmela.
“Um alto republicano da altura de seu nome Joaquim José de Carvalho, vivia na casa dos seus sogros (onde situa hoje o nosso Retiro Azul). Segundo a história, existiu um mandado de captura a sua casa, mandado por Sidónio Pais, Presidente da República, devido às convenções republicanas democráticas onde, assim, conseguiu escapar ao regime e ficar por terras do Lau”, explica a mesma publicação.
Com a abertura do espaço, nos anos 30, com a gerência a cargo de José Guilherme dos Santos, surge uma “profunda inovação nos hábitos da vila, o hábito de beber café onde, na altura, era luxo para as ‘elites sócios económicas’ da terra, onde se demarcava por ser um espaço diferente, sendo, até aos dias de hoje, um ponto de encontro em Palmela”.

