A imagem ilustrativa desta entrevista foi gerada com recurso à inteligência artificial, como tantos milhares de pedidos feitos, diariamente, numa época dotada de ferramentas engenhosas e facilitadoras. Há informação instantânea que se difunde, sobrando pouco espaço para perceber o que é real, ou não.
Nesse sentido, há projetos pensados como “espaços de debate livre, informado e plural”, como é o caso do podcast “Se Não Sabes Pergunta”, idealizado pelo setubalense Paulo Anjos. Direcionado para o concelho de Setúbal, pretende debruçar-se sobre diversos assuntos, com diferentes convidados, personalidades e entidades, que “sentem no dia a dia o impacto das políticas locais”.
Está a decorrer, até 20 de março, um crowdfunding para ajudar na concretização da iniciativa, disponível numa plataforma online, a PPL (People), com o link aqui, onde estão disponíveis, também, outras informações acerca do promotor e do projeto. Foram angariados, até ao momento, 201€, mas o objetivo é chegar aos 500€.
O apoio pretende que o podcast possa “arrancar com qualidade profissional” e destina-se à compra de “equipamento básico de áudio e vídeo (microfones, interface de som, iluminação e tratamento acústico)”.
O Revela Arrábida entrevistou o autor do “Se Não Sabes Pergunta — um podcast para falarmos de Setúbal”, de modo a entender o porquê do lançamento, os objetivos, quais os convidados e expectativas.
Há quanto tempo tinha este projeto guardado?
Era uma ideia que germinava há muito… Na verdade, só resulta da minha paixão pela rádio, onde comecei a minha carreira jornalística quando tinha 18 anos, mais precisamente na Rádio Azul, com dois mestres daqueles que não consegue esquecer quem com eles trabalhou e com eles aprendeu, apesar do “mau feitio” que tinham — o Luciano Rocha e o Jorge Simões.
O que contribuiu para pensar “este é o momento do lançamento”?
Tenho maior disponibilidade mental neste momento para lançar um projeto destes, depois de oito anos em que ocupei funções de responsabilidade na autarquia de Setúbal e de mais 16 em que tive igualmente responsabilidades que não seriam compatíveis com um podcast destes. À disponibilidade mental, associa-se maior disponibilidade de tempo. É que, ainda que possa haver quem pense que as funções de apoio à administração numa autarquia, como as que desempenhei, são coisa pouco intensa — mais muito dada a almoçaradas, como já houve por aí quem, estupidamente, tenha dito — a verdade é que ter tais responsabilidades implica estar sempre presente, sempre disponível, à noite, ao fim de semana, quando é preciso. Implica, na prática, não pensar em mais nada. Durante mais de vinte anos o meu nome e o meu número de telefone estiveram inscritos em todas notas de imprensa que a Câmara Municipal em que trabalhei distribuiu. Ligavam-me a qualquer hora do dia ou da noite e nunca deixaram de falar com a Câmara Municipal por minha causa.
Num podcast que se chama: “Se Não Sabes Pergunta — um podcast para falarmos de Setúbal”, o que é mais importante perguntar?
Aquilo para que não sei a resposta… A ideia é mesmo essa: perguntar o que não sei ou, dito de outra forma, perguntar o que me parece que o público não sabe ainda. Quero, sobretudo, fazer entrevistas a gente de Setúbal que é protagonista da vida da cidade e do concelho. Quero fazer dessas entrevistas um processo de revelação da verdade que cada um tem sobre determinado tema. Vejo sempre as entrevistas como um processo hermenêutico de que resulta uma verdade que, no fim, origina um produto — a entrevista, neste caso — que é propriedade tanto de quem pergunta, como de quem responde.
Na apresentação do podcast, diz: “decisões públicas são escrutinadas”. Acha que há pouco escrutínio ou simplesmente não existe um espaço próprio, sério e moderado para o fazer?
Acho apenas que pode haver mais escrutínio, particularmente em áreas em que, ao longo dos tempos, recolhi e selecionei muita informação e saber. Não tenho a pretensão de fazer mais ou menos escrutínio que os outros. Quero, aliás, estabelecer parcerias com os órgãos de comunicação social locais para que participem nestas entrevistas. O Revela Arrábida está, desde já, convidado.
Acrescenta: “ideias são confrontadas”. No meio da ideologia, das opiniões e dos argumentos, considera que falta frontalidade?
A frontalidade depende apenas dos protagonistas que quero entrevistar. Tudo farei para que revelem essa frontalidade, sabendo, como muito bem sei, que, na maior parte das vezes, as repostas que são dadas a questões mais complexas resultam em fórmulas discursivas redondas que os entrevistados se esforçam por produzir, ou para não ofender, ou para que apenas alguns destinatários entendam o “recado”. No fim, só uns quantos “ilustrados” acabam por perceber o que está exatamente a ser dito. Temos, em Portugal, muito o hábito de deixar muita coisa dita nas entrelinhas. O problema é que a maior parte do público, que anda nas suas vidas, não está preparado para descodificar essas entrelinhas. O que quero é tentar que ninguém fale nas entrelinhas, mesmo que isso até me possa deixar desconfortável.
Ainda diz que o podcast será uma plataforma onde a “voz dos cidadãos é levada a sério”. Pode dizer-se que não é?
Ao longo dos anos de atividade profissional conclui que os vários poderes reagem com mais intensidade e rapidez a questões que são colocadas pela imprensa e, agora, pelos novos media. As redes sociais podem, em certas circunstâncias, constituir-se como um novo media e ser entendidas tal como entendemos um órgão de comunicação social. Daí que hoje exista uma mais rápida e detalhada reação dos poderes a questões colocadas através das redes sociais, semelhante à que existe para a comunicação social. Um podcast como o que pretendo fazer, não se podendo comparar com uma rede social, vive, sobretudo, da escala que possa ganhar nessas redes e, tendo essa escala, como desejo que venha ater, pode transformar-se num instrumento que influencie as respostas e decisões dos poderes públicos e, consequentemente, contribuir para a resolução de problemas e para o bem comum.
Se o projeto avançar, já tem em mente quem será o primeiro convidado?
Sim, já sei quem será e até já lhe disse. Será o Rui Garcia. Dito assim poucos saberão de quem estou a falar, mas se disser que é o Charroque da Profundurra já todos saberão. O Rui Garcia, de uma forma muito significante, encarna bem o que é o nosso povo sadino, de que me orgulho de fazer parte. No sotaque, que pratico às vezes, mas também no resto do que é uma das mais fortes identidades do nosso pequeno país.
Quais são as expectativas?
Podia ter-me perguntado quais são os prognósticos para que pudesse responder-lhe como o João Pinto: “só no fim do jogo”. Ainda há muito caminho para andar. Primeiro tenho de concluir a campanha de crowdfunding que iniciei numa plataforma que se chama PPL (do inglês “people”). A minha campanha, para angariar 500 euros, está disponível em https://ppl.pt/setubal e, até agora, já recolheu 201 euros. Ainda falta um bocadinho, portanto… No entanto, apercebi-me de que os equipamentos de que necessito serão, afinal, um pouco mais caros e, por isso, os 500 euros, se lá chegar, serão uma ajuda para comprar material de maior qualidade. Numa segunda fase, se tudo correr bem, evoluirei para ter o podcast com vídeo também.
No culminar de décadas ao serviço público, como trabalhador de vários municípios, onde esteve atrás “das cortinas” (se assim se pode dizer), porquê pisar o palco?
“Atrás das cortinas” descreve, de alguma forma, o que fiz durante muitos anos, mas tem de ser melhor contextualizado, porque a minha atividade nada tem de obscuro. Sempre entendi que um assessor de imprensa, como fui durante décadas — e sem excluir que o possa vir a ser de novo — não é, nem pode ser, protagonista da notícia. Está lá para servir o interesse da instituição, como é óbvio, e nem podia ser de outra forma. Pisar o palco, como diz, tem mais a ver com o facto de ter iniciado a minha carreira profissional na rádio e de essa ser a atividade que, desde sempre, mais me apaixonou, embora não a tenha praticado durante décadas e a rádio seja feita sempre num contexto de invisibilidade. Os podcasts, a entrevista, têm muito a ver com a rádio. O que é muito importante que fique claro é que não quero ocupar palco nenhum. Não quero mesmo. O que quero é que aqueles que já estão no palco expliquem o que lá estão a fazer. Estou, naturalmente, preparado para todas as interpretações que aí venham, bem ou mal intencionadas. Mas é natural que elas surjam. Cá estarei para esclarecer. Entretanto, espero que quem vê utilidade neste projeto possa ajudar através do seu contributo, por mais singelo que possa ser, em https://ppl.pt/setubal

