Segunda-feira, 23 Março 2026
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1000 garrafas, um homem: Adega de Palmela apresenta legado de Jacinto Pereira

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Por detrás dos maiores sucessos, existem, na maioria dos casos, grandes pessoas. Na história da Adega Cooperativa de Palmela, o cenário não foi diferente. Entre os fundadores, numa casa que soma 70 anos de existência, fica um legado, mas também uma surpresa engarrafada pelas mãos de Jacinto Pereira, e que foi recentemente aberta e descoberta.

Um homem dedicado ao associativismo e com grande valor e reconhecimento na região, Jacinto, o primeiro técnico da cooperativa, deixou um mistério por resolver. Uma vez que já faleceu, não são conhecidas as suas motivações, mas ficamos com o sabor da aguardente vínica velha ADP XO (Extra Old), uma produção com pouco menos de mil garrafas, e que o enólogo Luís Silva descreve numa palavra: “suavidade”.

“Sempre vimos as garrafas e nunca nos preocupamos muito em perceber o que ali estava. Sabíamos que, eventualmente, era uma boa surpresa, mas fomos deixando. Na altura dos 70 anos da adega, achamos por bem tirar a aguardente e fazer uma homenagem pelo aniversário, mas também ao Jacinto. Afinal, foi ele que a fez. Foi um grande homem.”, confessa ao Revela Arrábida.

A maior parte da aguardente já estava engarrafada, mas também existia em barrica. “Sabíamos que era algo de muito valor. A questão também se prendia no que podíamos fazer, porque estamos a falar de uma quantidade muito pequena. É algo que fica sempre ligado à nossa história e que queremos manter por aqui, mas existia esta necessidade de criar algo muito especial para os 70 anos. Quem a fez guardou o segredo e não deixou a história para contar”, elucida Luís.

E acrescenta: “Esta é uma data que pode ser considerada, ao fim ao cabo, histórica, porque representa o início das adegas cooperativas em Portugal. Apesar da adega ter esta idade, os associados já estão ligados à viticultura há muitos anos. A cultura e tradição vão muito além disso”.

Jacinto Pereira produziu a aguardante numa época diferente. “Não devem ter sido tempos fáceis, imagino, porque era tudo com recurso à mão de obra. A Adega de Palmela tinha mais associados, mais quilos de uva a entrar, e menos condições para vinificar. Recordo-me de vir com o meu avô e de descarregarem as tinas à forquilha. Por isso esta é também uma homenagem aos que fizeram parte da história ao longo dos anos e que continuam a produção de vinhos que ganham concursos”, adiciona o profissional.

De “aromas amadeirados” e com “outro perfil aromático, mais complexo”, a aguardente envelhecida traz “elementos e compostos que dão outro prazer” ao provar. Apresentada na celebração do aniversário, a bebida — com 41 por cento de álcool — foi lançada no final de setembro e existe, como dita a produção original e única, em quantidades limitadas.

“Com uma tonalidade topázio brilhante, aromas de casca de laranja, frutos secos e notas balsâmicas, esta aguardente distingue-se pelo paladar aveludado e pelo final longo, ideal para ser apreciada lentamente como digestivo. Envelhecida ao longo de 50 anos na penumbra das caves da Adega, apresenta uma complexidade aromática que a torna num produto único e irrepetível”, pode ler-se nas notas.

Fundada em 1955, com a designação de Adega Cooperativa da Região do Moscatel de Setúbal, iniciou a sua atividade em 1958. A principal zona vitícola da Adega de Palmela situa-se na planície arenosa que constitui grande parte do concelho. A cooperativa iniciou a sua atividade com 50 associados e com uma produção que não excedia os 1,5 milhões de litros.

Nos dias de hoje a produção ultrapassa os 8 milhões de litros, e a Adega dispõe de capacidade para atingir os 10 milhões, sendo 70 por cento vinho tinto, 25 por cento vinho branco e 5 por cento Moscatel de Setúbal. Tem, atualmente, 200 associados, que possuem uma área combinada de 1000 hectares.

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